A frágil recuperação da atividade foi suficiente para elevar em mais de dez vezes o déficit da indústria de transformação no terceiro trimestre, piora acentuada pelas mudanças no regime tributário especial de bens destinados ao setor de óleo e gás. De julho a setembro, a diferença entre exportações e importações do setor foi negativa em US$ 10,747 bilhões - 12 vezes maior do que o rombo registrado em igual período de 2017, de US$ 823 milhões. Os dados foram levantados pelo Instituto de Estudos p
Produção industrialCrédito: Divulgação

O aprofundamento resultou de avanço de 27,8% das importações entre o terceiro trimestre de 2017 e o mesmo intervalo de 2018, para US$ 46,4 bilhões - expansão mais forte nessa comparação desde o segundo trimestre de 2011. Já as vendas externas do segmento aumentaram apenas 0,4% no período, para US$ 35,6 bilhões. De janeiro a setembro, o déficit comercial da indústria manufatureira alcançou US$ 20,3 bilhões, dez vezes mais do que o registrado no mesmo intervalo do ano passado e pior dado desde 2015 (déficit de US$ 30 bilhões).

Mais da metade do saldo negativo da indústria de transformação em 2018 foi gerada entre os meses de julho e setembro, o que marca o pior trimestre para a balança comercial do setor desde os três primeiros meses de 2015, destaca o economista Rafael Cagnin. Parte da deterioração é explicada pelas importações da área de construção e reparação naval, que saíram de US$ 18 milhões para US$ 5,4 bilhões entre o terceiro trimestre de 2017 e igual período deste ano.

O rombo no setor foi inflado pelas alterações no Repetro, regime que dá tratamento tributário especial para bens destinados ao setor de óleo e gás. No acumulado dos primeiros nove meses do ano, foram importados US$ 7,3 bilhões em plataformas de petróleo, ante somente US$ 1 milhão no mesmo período de 2017.

O crescimento atípico ocorreu porque muitos desses bens já estavam em território nacional e tiveram sua importação registrada na balança comercial somente agora, com a mudança para o Repetro Sped. Segundo Cagnin, essas operações inflaram o déficit da indústria, mas o setor teria ficado no vermelho no terceiro trimestre mesmo sem elas.

Isso porque, de acordo com classificação feita pelo Iedi com base em metodologia da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), todas as faixas de intensidade tecnológica importaram mais do que exportaram no período, com exceção da baixa tecnologia. Neste ramo - com superávit de US$ 10,6 bilhões entre julho e setembro - a influência positiva veio da indústria de alimentos, bebidas e tabaco (US$ 8,5 bilhões), segmento tradicionalmente superavitário porque tem vantagens comparativas, diz o economista da entidade.

Por outro lado, o ramo de têxteis, couro e calçados, que também compõe os setores de menor uso tecnológico, registrou déficit de US$ 537 milhões no terceiro trimestre, sétimo resultado negativo consecutivo nessa medida. "Esse setor é mais sensível à concorrência internacional, sobretudo de asiáticos, e está caminhando mais rapidamente para padrões de déficit pré-crise", analisou Cagnin.

Na indústria de média-alta tecnologia - faixa em que estão os maiores setores do parque fabril nacional -, o economista ressalta a deterioração na balança de veículos automotores, reboques e semirreboques. No terceiro trimestre, o segmento teve saldo negativo de US$ 759 milhões. Em igual período de 2017, registrou superávit de US$ 792 milhões. Para Cagnin, a reversão reflete não só a recessão na Argentina, principal destino das exportações brasileiras de veículos, mas também a reativação das importações.

De julho a setembro, os desembarques no setor aumentaram 26,7% em relação ao mesmo intervalo de 2017, para US$ 4,1 bilhões. "Há uma relativa normalização no setor, que foi o que mais perdeu do ponto de vista de produção e vendas durante a crise, que afetou bastante as importações", disse.

Cagnin, no entanto, avalia como preocupante que, de forma geral, o déficit da balança comercial da indústria tenha crescido tanto neste ano sem nenhuma medida de abertura comercial por parte do governo. Isso mostra que qualquer ação nesse sentido precisa ser bem planejada, afirma, mencionando a ideia ventilada pela equipe econômica do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), de cortar de forma unilateral tarifas de importação.

"Somos favoráveis à maior aproximação do Brasil à economia global, mas isso precisa ser feito de forma responsável, e não de modo abrupto e pouco planejado", pontua o economista.

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O aprofundamento resultou de avanço de 27,8% das importações entre o terceiro trimestre de 2017 e o mesmo intervalo de 2018, para US$ 46,4 bilhões - expansão mais forte nessa comparação desde o segundo trimestre de 2011. Já as vendas externas do segmento aumentaram apenas 0,4% no período, para US$ 35,6 bilhões. De janeiro a setembro, o déficit comercial da indústria manufatureira alcançou US$ 20,3 bilhões, dez vezes mais do que o registrado no mesmo intervalo do ano passado e pior dado desde 2015 (déficit de US$ 30 bilhões).

Mais da metade do saldo negativo da indústria de transformação em 2018 foi gerada entre os meses de julho e setembro, o que marca o pior trimestre para a balança comercial do setor desde os três primeiros meses de 2015, destaca o economista Rafael Cagnin. Parte da deterioração é explicada pelas importações da área de construção e reparação naval, que saíram de US$ 18 milhões para US$ 5,4 bilhões entre o terceiro trimestre de 2017 e igual período deste ano.

O rombo no setor foi inflado pelas alterações no Repetro, regime que dá tratamento tributário especial para bens destinados ao setor de óleo e gás. No acumulado dos primeiros nove meses do ano, foram importados US$ 7,3 bilhões em plataformas de petróleo, ante somente US$ 1 milhão no mesmo período de 2017.

O crescimento atípico ocorreu porque muitos desses bens já estavam em território nacional e tiveram sua importação registrada na balança comercial somente agora, com a mudança para o Repetro Sped. Segundo Cagnin, essas operações inflaram o déficit da indústria, mas o setor teria ficado no vermelho no terceiro trimestre mesmo sem elas.

Isso porque, de acordo com classificação feita pelo Iedi com base em metodologia da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), todas as faixas de intensidade tecnológica importaram mais do que exportaram no período, com exceção da baixa tecnologia. Neste ramo - com superávit de US$ 10,6 bilhões entre julho e setembro - a influência positiva veio da indústria de alimentos, bebidas e tabaco (US$ 8,5 bilhões), segmento tradicionalmente superavitário porque tem vantagens comparativas, diz o economista da entidade.

Por outro lado, o ramo de têxteis, couro e calçados, que também compõe os setores de menor uso tecnológico, registrou déficit de US$ 537 milhões no terceiro trimestre, sétimo resultado negativo consecutivo nessa medida. "Esse setor é mais sensível à concorrência internacional, sobretudo de asiáticos, e está caminhando mais rapidamente para padrões de déficit pré-crise", analisou Cagnin.

Na indústria de média-alta tecnologia - faixa em que estão os maiores setores do parque fabril nacional -, o economista ressalta a deterioração na balança de veículos automotores, reboques e semirreboques. No terceiro trimestre, o segmento teve saldo negativo de US$ 759 milhões. Em igual período de 2017, registrou superávit de US$ 792 milhões. Para Cagnin, a reversão reflete não só a recessão na Argentina, principal destino das exportações brasileiras de veículos, mas também a reativação das importações.

De julho a setembro, os desembarques no setor aumentaram 26,7% em relação ao mesmo intervalo de 2017, para US$ 4,1 bilhões. "Há uma relativa normalização no setor, que foi o que mais perdeu do ponto de vista de produção e vendas durante a crise, que afetou bastante as importações", disse.

Cagnin, no entanto, avalia como preocupante que, de forma geral, o déficit da balança comercial da indústria tenha crescido tanto neste ano sem nenhuma medida de abertura comercial por parte do governo. Isso mostra que qualquer ação nesse sentido precisa ser bem planejada, afirma, mencionando a ideia ventilada pela equipe econômica do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), de cortar de forma unilateral tarifas de importação.

"Somos favoráveis à maior aproximação do Brasil à economia global, mas isso precisa ser feito de forma responsável, e não de modo abrupto e pouco planejado", pontua o economista.