Com o fim das incertezas relacionadas às eleições, a economia brasileira se encaminha para crescer a um ritmo mais forte em 2019, ainda que não se espere uma expansão robusta. As condições para uma aceleração moderada da atividade estão dadas, por causa da enorme ociosidade de recursos, dos juros e da inflação baixos e da solidez das contas externas.
Economia brasileira encolheu 0,81% no trimestre, diz Banco CentralCrédito: Divulgação

Nesse ambiente, a retomada pode ganhar fôlego sem gerar pressões inflacionárias relevantes, com a Selic inalterada por um período considerável. Se a agenda de reformas avançar e o quadro internacional não ficar hostil aos emergentes, um crescimento de 2,5% a 3% em 2019 é factível, depois de um avanço frustrante neste ano, na casa de 1,5%. O PIB do terceiro trimestre cresceu 0,8% em relação ao trimestre anterior, alta mais forte que o aumento de 0,2% dos três meses anteriores, quando houve o efeito da greve dos caminhoneiros.

"A posição cíclica da economia favorece a retomada do crescimento", resume o economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato Barbosa. Segundo ele, há um cenário benigno formado por inflação e juros em níveis baixos, endividamento menor de empresas e consumidores, capacidade ociosa elevada, evidente no mercado de trabalho e na indústria, e um pequeno déficit externo.

Barbosa aponta também a melhora no mercado de crédito, englobando aí o comportamento de empréstimos bancários, do mercado de capitais e de captações externas. Há ainda um quadro um pouco melhor no mercado de trabalho, com maior geração de empregos.

Se no próximo ano a agenda de reformas fiscais e de estímulo ao crescimento avançar, a melhora recente das condições financeiras deverá se traduzir em expansão mais forte da atividade, diz Barbosa. Os juros futuros caíram, o câmbio se valorizou, a bolsa subiu e o risco-país cedeu, nota ele. Barbosa vê espaço para o PIB crescer 2,8% no ano que vem - para este ano, projeta 1,1%.

Os economistas destacam a grande ociosidade na economia, que levará um tempo considerável para ser preenchida. Isso abre espaço para a atividade ganhar velocidade sem pressionar a inflação, num quadro em que os índices de preços estão comportados, como diz o economista-chefe do Morgan Stanley para a América Latina, Arthur Carvalho. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deve fechar 2018 abaixo de 4%, nível inferior à meta de 4,5%.


No mercado de trabalho, a taxa de desemprego deve ficar em 12,1% na média deste ano e em 11,1% na do ano que vem, nas estimativas da economista-chefe da Rosenberg Associados, Thais Marzola Zara. Como ela calcula que a taxa de desocupação que não acelera a inflação está em torno de 8,5%, o desemprego em 2019 ainda deverá ficar bastante acima desse nível.

Carvalho considera que, com a reforma trabalhista, as empresas tendem a gastar primeiro com contratações do que com investimentos, uma vez que o mercado de trabalho se tornou mais flexível. No entanto, isso não deve se traduzir em alta preocupante da inflação. Para Carvalho, o desemprego ainda deverá fechar 2019 em 10,4%, um número acima dos cerca de 8% que, estima ele, pressionariam os índices de preços.

A situação na indústria é tranquila. O nível de utilização da capacidade instalada (Nuci) de novembro foi de 75,2%, abaixo dos 76,4% de outubro, conforme dados com ajuste sazonal da Fundação Getulio Vargas. É um número baixo, inferior à média observada desde 2001, de 80,6%. "O crescimento mais forte não deve gerar inflação porque há muita ociosidade na economia", diz Carvalho, que vê um IPCA de 3,8% neste ano e de 4% em 2019 - inferior à meta de 4,25% do ano que vem.

Thais também vê um quadro tranquilo para a inflação, permitindo que o Banco Central (BC) mantenha os juros nos atuais 6,5% ao ano por um período razoavelmente longo. Ela espera a primeira alta da Selic para setembro do ano que vem, acreditando que a taxa vai terminar 2019 em 7,25%. Na visão de Thais, a ociosidade só será preenchida em 2020, mas o BC aumentará a Selic um pouco antes porque a política monetária age com defasagem sobre a economia. Barbosa, que projetava a primeira elevação da Selic para o segundo trimestre do ano que vem, acredita que o aumento pode ser adiado. Com a grande capacidade ociosa, a inflação está comportada, diz ele.

Carvalho só vê duas altas da Selic no fim do ano que vem, com o BC começando a ajustar a política monetária com vistas à inflação de 2020. Os juros encerrariam 2019 em 7,5%, segundo o economista do Morgan Stanley. Ele projeta uma expansão do PIB de 2,3%, um número mais modesto do que o 2,8% estimado por Barbosa e também por Thais. Para ele, o investimento terá alta mais moderada do que em recuperações anteriores, quando chegou a crescer a taxas de dois dígitos nos períodos que se seguiram a recessões.

Há muita capacidade ociosa, o custo de capital é elevado e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) deve continuar a jogar na retranca, avalia Carvalho, projetando alta para o investimento de 2,6% neste ano e de 5,5% no ano que vem. São números inferiores aos 3,5% e 6,5% estimados pelo Bradesco, por exemplo. O economista do Morgan Stanley se diz "cauteloso" ao falar sobre as perspectivas econômicas do Brasil, observando que o processo político pode ser conturbado. Ele trabalha com a aprovação de uma reforma da Previdência parecida com a última versão discutida no Congresso da proposta do governo de Michel Temer, ou um pouco mais dura.

Um dos fatores que podem abortar a aceleração da retomada é justamente uma eventual decepção com o andamento das reformas. Isso afetaria a recuperação da confiança e colocaria pressão no câmbio e elevaria os juros futuros e o risco-país, por exemplo. As condições financeiras piorariam, comprometendo a melhora da atividade, dizem os analistas. A agenda para enfrentar o problema fiscal e elevar o crescimento é fundamental para que o cenário mais positivo se concretize, segundo Barbosa.

Outro ponto que pode abalar a retomada brasileira é o cenário internacional, destaca o economista-chefe do Bradesco. Há as incertezas em relação ao ciclo de alta dos juros americanos, o temor de enfraquecimento do crescimento global e as tensões comerciais entre EUA e China. Na semana passada, porém, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Jerome Powell, deu sinais de que o aperto monetário será menos duro do que se pensava. Na visão de Barbosa, o discurso de Powell foi um alívio, mas seria cedo para dizer que o cenário para os emergentes será mais favorável - o quadro para a política monetária americana ainda permanece em aberto.

Se as reformas caminharem e o ambiente internacional não se deteriorar, há espaço para a economia ganhar velocidade ao longo do ano que vem, reitera Barbosa, que vê o PIB crescendo a um ritmo anualizado de 3% a 4% na segunda metade de 2019.

 

Economia brasileira encolheu 0,81% no trimestre, diz Banco CentralCrédito: Divulgação

Nesse ambiente, a retomada pode ganhar fôlego sem gerar pressões inflacionárias relevantes, com a Selic inalterada por um período considerável. Se a agenda de reformas avançar e o quadro internacional não ficar hostil aos emergentes, um crescimento de 2,5% a 3% em 2019 é factível, depois de um avanço frustrante neste ano, na casa de 1,5%. O PIB do terceiro trimestre cresceu 0,8% em relação ao trimestre anterior, alta mais forte que o aumento de 0,2% dos três meses anteriores, quando houve o efeito da greve dos caminhoneiros.

"A posição cíclica da economia favorece a retomada do crescimento", resume o economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato Barbosa. Segundo ele, há um cenário benigno formado por inflação e juros em níveis baixos, endividamento menor de empresas e consumidores, capacidade ociosa elevada, evidente no mercado de trabalho e na indústria, e um pequeno déficit externo.

Barbosa aponta também a melhora no mercado de crédito, englobando aí o comportamento de empréstimos bancários, do mercado de capitais e de captações externas. Há ainda um quadro um pouco melhor no mercado de trabalho, com maior geração de empregos.

Se no próximo ano a agenda de reformas fiscais e de estímulo ao crescimento avançar, a melhora recente das condições financeiras deverá se traduzir em expansão mais forte da atividade, diz Barbosa. Os juros futuros caíram, o câmbio se valorizou, a bolsa subiu e o risco-país cedeu, nota ele. Barbosa vê espaço para o PIB crescer 2,8% no ano que vem - para este ano, projeta 1,1%.

Os economistas destacam a grande ociosidade na economia, que levará um tempo considerável para ser preenchida. Isso abre espaço para a atividade ganhar velocidade sem pressionar a inflação, num quadro em que os índices de preços estão comportados, como diz o economista-chefe do Morgan Stanley para a América Latina, Arthur Carvalho. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deve fechar 2018 abaixo de 4%, nível inferior à meta de 4,5%.


No mercado de trabalho, a taxa de desemprego deve ficar em 12,1% na média deste ano e em 11,1% na do ano que vem, nas estimativas da economista-chefe da Rosenberg Associados, Thais Marzola Zara. Como ela calcula que a taxa de desocupação que não acelera a inflação está em torno de 8,5%, o desemprego em 2019 ainda deverá ficar bastante acima desse nível.

Carvalho considera que, com a reforma trabalhista, as empresas tendem a gastar primeiro com contratações do que com investimentos, uma vez que o mercado de trabalho se tornou mais flexível. No entanto, isso não deve se traduzir em alta preocupante da inflação. Para Carvalho, o desemprego ainda deverá fechar 2019 em 10,4%, um número acima dos cerca de 8% que, estima ele, pressionariam os índices de preços.

A situação na indústria é tranquila. O nível de utilização da capacidade instalada (Nuci) de novembro foi de 75,2%, abaixo dos 76,4% de outubro, conforme dados com ajuste sazonal da Fundação Getulio Vargas. É um número baixo, inferior à média observada desde 2001, de 80,6%. "O crescimento mais forte não deve gerar inflação porque há muita ociosidade na economia", diz Carvalho, que vê um IPCA de 3,8% neste ano e de 4% em 2019 - inferior à meta de 4,25% do ano que vem.

Thais também vê um quadro tranquilo para a inflação, permitindo que o Banco Central (BC) mantenha os juros nos atuais 6,5% ao ano por um período razoavelmente longo. Ela espera a primeira alta da Selic para setembro do ano que vem, acreditando que a taxa vai terminar 2019 em 7,25%. Na visão de Thais, a ociosidade só será preenchida em 2020, mas o BC aumentará a Selic um pouco antes porque a política monetária age com defasagem sobre a economia. Barbosa, que projetava a primeira elevação da Selic para o segundo trimestre do ano que vem, acredita que o aumento pode ser adiado. Com a grande capacidade ociosa, a inflação está comportada, diz ele.

Carvalho só vê duas altas da Selic no fim do ano que vem, com o BC começando a ajustar a política monetária com vistas à inflação de 2020. Os juros encerrariam 2019 em 7,5%, segundo o economista do Morgan Stanley. Ele projeta uma expansão do PIB de 2,3%, um número mais modesto do que o 2,8% estimado por Barbosa e também por Thais. Para ele, o investimento terá alta mais moderada do que em recuperações anteriores, quando chegou a crescer a taxas de dois dígitos nos períodos que se seguiram a recessões.

Há muita capacidade ociosa, o custo de capital é elevado e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) deve continuar a jogar na retranca, avalia Carvalho, projetando alta para o investimento de 2,6% neste ano e de 5,5% no ano que vem. São números inferiores aos 3,5% e 6,5% estimados pelo Bradesco, por exemplo. O economista do Morgan Stanley se diz "cauteloso" ao falar sobre as perspectivas econômicas do Brasil, observando que o processo político pode ser conturbado. Ele trabalha com a aprovação de uma reforma da Previdência parecida com a última versão discutida no Congresso da proposta do governo de Michel Temer, ou um pouco mais dura.

Um dos fatores que podem abortar a aceleração da retomada é justamente uma eventual decepção com o andamento das reformas. Isso afetaria a recuperação da confiança e colocaria pressão no câmbio e elevaria os juros futuros e o risco-país, por exemplo. As condições financeiras piorariam, comprometendo a melhora da atividade, dizem os analistas. A agenda para enfrentar o problema fiscal e elevar o crescimento é fundamental para que o cenário mais positivo se concretize, segundo Barbosa.

Outro ponto que pode abalar a retomada brasileira é o cenário internacional, destaca o economista-chefe do Bradesco. Há as incertezas em relação ao ciclo de alta dos juros americanos, o temor de enfraquecimento do crescimento global e as tensões comerciais entre EUA e China. Na semana passada, porém, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Jerome Powell, deu sinais de que o aperto monetário será menos duro do que se pensava. Na visão de Barbosa, o discurso de Powell foi um alívio, mas seria cedo para dizer que o cenário para os emergentes será mais favorável - o quadro para a política monetária americana ainda permanece em aberto.

Se as reformas caminharem e o ambiente internacional não se deteriorar, há espaço para a economia ganhar velocidade ao longo do ano que vem, reitera Barbosa, que vê o PIB crescendo a um ritmo anualizado de 3% a 4% na segunda metade de 2019.