Estudo indica que 55% dos que voltaram ao mercado estão na informalidade
Em um ano, menos da metade dos desempregados consegue vagaCrédito: Divulgação

A economia voltou a crescer em 2017, mas, para a maioria dos brasileiros que perderam o emprego há mais de um ano, a crise ainda não passou. Segundo levantamento da consultoria IDados, apenas 46% dos trabalhadores que estavam em busca de uma vaga no fim de 2016 haviam conseguido ocupação no fim do ano passado. Desses, mais da metade foram para postos informais: sem carteira ou por conta própria. Já entre a maioria de 54% que não conseguiu emprego, cerca de um terço parou de procurar — parte por desalento. Para especialistas, os dados mostram que o país ainda demorará para diminuir a fila de quase 13 milhões de pessoas sem trabalho, 12,6% segundo a taxa de fevereiro.

Os dados compilados pela consultoria são baseados na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnadc), do IBGE. Algumas informações do estudo foram antecipadas pela coluna de Ancelmo Góis, no GLOBO. Os pesquisadores compararam as amostras do fim de 2016 e do fim de 2017. Assim, foi possível verificar como se comportou a variação percentual de cada grupo de trabalhadores acompanhado pelo IBGE. O levantamento não calcula números absolutos porque as amostras não são exatamente as mesmas — cada domicílio é entrevistado cinco vezes ao longo de três meses. Na avaliação da pesquisadora Thaís Barcellos, responsável pelo levantamento do IDados, uma consequência desse quadro é que parte dessas pessoas podem não voltar ao mercado no futuro:
Evidências científicas indicam que permanecer muito tempo fora do mercado de trabalho pode dificultar a recolocação. Acrescentando a isso o fato de muitos serem trabalhadores jovens, que já têm dificuldade de acesso ao mercado de trabalho, com baixa escolaridade e que estão deixando de acumular experiência, pode ser um resultado preocupante a longo prazo.

JOVENS TÊM MAIS DIFICULDADES

Esse é o receio de Leandro Pereira da Silva, de 33 anos. Ele foi demitido há exatamente um ano de seu primeiro emprego, após 12 anos de trabalho. Atuava na área logística, com distribuição de livros. Desde então, só conseguiu dois temporários. Ficar fora do mercado é uma preocupação a mais para quem já vive com o dinheiro contado, que vem do aluguel de quitinetes em Inhaúma, Zona Norte do Rio, que construiu com a indenização. Rendem R$ 1.500, mas o valor é dividido com a mãe, que mora no terreno. Como tem um problema de saúde, gasta R$ 400 por mês só com plano.

Ficar afastado desse ambiente, dessa convivência, atrapalha em tudo. Nunca tinha passado por processo seletivo como os de hoje em dia. Os dois que fiz para vagas temporárias foram experiências muito novas — diz Leandro, que pagou R$ 300 para anunciar o currículo on-line.

Segundo a pesquisa, dos desempregados que não conseguiram recolocação em 12 meses, 35% estavam na faixa de 18 a 24 anos, seja porque permaneceram tentando uma vaga sem sucesso ou por terem desistido de procurar.

Kevin Azevedo, de 22 anos, está nesse segundo grupo. Em 2016, chegou a trabalhar como Jovem Aprendiz em uma fabricante de gases industriais. Mas, depois do término do programa, se deparou com as dificuldades da recessão para conseguir um emprego definitivo. Durante o ano passado, distribuiu currículos, mas sem sucesso. Agora mudou de planos: investiu em uma faculdade de Administração de Empresas para melhorar suas chances no futuro.
— Desde fevereiro de 2017 que procuro uma vaga. Sempre pediam nível superior. Cheguei a ter algumas respostas, mas o nível técnico não era o suficiente. Por isso, iniciei a graduação no início deste ano, para ver se tenho mais chances — conta o jovem, que mora com os pais em Bangu, Zona Oeste do Rio. — Chegamos ao mercado justamente em momento de crise, em que as vagas são escassas. Quando as vagas reaparecerem, talvez a gente não sirva mais para o mercado.

ESPECIALISTA DESTACA POLÍTICA DE QUALIFICAÇÃO

O problema é que o mercado de trabalho anda mesmo com pouco fôlego, dizem analistas. Na avaliação do economista Claudio Dedecca, da Unicamp, é a lentidão em reintegrar quem perdeu o emprego na crise que mais preocupa, embora ele pondere que o acesso ao primeiro emprego também esteja influenciando os números.
— Na década de 1970 e 1980, em que a população economicamente ativa chegava a crescer 4%, acontecia de postos serem ocupados por quem estava chegando ao mercado na recuperação de uma crise, em vez de ocorrer a reabsorção dos desempregados. Hoje o contexto é diferente. O crescimento da população economicamente ativa é baixo. Se não estamos reabsorvendo mão de obra, significa que a geração de emprego tem sido muito limitada — afirma.

Para o pesquisador, são necessárias políticas públicas de qualificação para garantir que quem perdeu o emprego não saia de vez do mercado:
— Se é um problema de reabsorção, temos que tratar de requalificação de mão de obra. E nesse exato momento os mecanismos de qualificação estão zerados. As políticas que o FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) deveria fazer neste momento para favorecer uma reabsorção mais rápida da força de trabalho não estão ocorrendo, considerando a crise fiscal.

Já o especialista em trabalho João Saboia, professor do Instituto de Economia da UFRJ, chama a atenção para a qualidade das vagas geradas, a maior parte na informalidade:
— A economia melhorou um pouquinho, passou de uma queda de 3,5% para crescimento de 1%. Ver que metade das pessoas que estavam desocupadas não conseguiram se ocupar é muito negativo. O mercado de trabalho não está bombando. Está gerando ocupação, mas precária.

Pelas contas do economista Thiago Xavier, da Tendências Consultoria, o percentual de informalidade no mercado de trabalho vai de 36,3% a 44,9%, dependendo do tipo de cálculo usado. Em qualquer métrica, ele destaca, esses índices estão próximos aos maiores patamares da série histórica da Pnad Contínua, a atual pesquisa do IBGE sobre emprego, iniciada em 2012:
— Na recessão, todos perdiam vagas. Agora, a gente vê uma mudança na estrutura ocupacional, com crescimento da ocupação muito assentado nas atividades ligadas à informalidade.

Hélio Zylbertajn, professor de Economia da USP especialista em relações de trabalho, lembra que o processo é lento, mas pondera que em 2017 houve avanço. Com base no levantamento do IDados, ele aponta que o percentual de desempregados que se recolocam em um ano chegou a ser de apenas 41% no primeiro trimestre de 2017.
— A proporção de desocupados que conseguem trabalho um ano depois está nesse momento em crescimento. O quadro é de melhora.

Zylbertajn acrescenta, no entanto, que tudo indica que a retomada do mercado será lenta.
— Temos 13 milhões de desempregados e a cada ano entram no mercado 1 milhão de pessoas. Só para manter o mesmo número de desempregados, a gente precisa criar 1 milhão de empregos. Ou seja, vamos diminuir o desemprego, mas vai ser uma coisa lenta. Vai depender muito do ritmo de crescimento — afirma.



 

Em um ano, menos da metade dos desempregados consegue vagaCrédito: Divulgação

A economia voltou a crescer em 2017, mas, para a maioria dos brasileiros que perderam o emprego há mais de um ano, a crise ainda não passou. Segundo levantamento da consultoria IDados, apenas 46% dos trabalhadores que estavam em busca de uma vaga no fim de 2016 haviam conseguido ocupação no fim do ano passado. Desses, mais da metade foram para postos informais: sem carteira ou por conta própria. Já entre a maioria de 54% que não conseguiu emprego, cerca de um terço parou de procurar — parte por desalento. Para especialistas, os dados mostram que o país ainda demorará para diminuir a fila de quase 13 milhões de pessoas sem trabalho, 12,6% segundo a taxa de fevereiro.

Os dados compilados pela consultoria são baseados na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnadc), do IBGE. Algumas informações do estudo foram antecipadas pela coluna de Ancelmo Góis, no GLOBO. Os pesquisadores compararam as amostras do fim de 2016 e do fim de 2017. Assim, foi possível verificar como se comportou a variação percentual de cada grupo de trabalhadores acompanhado pelo IBGE. O levantamento não calcula números absolutos porque as amostras não são exatamente as mesmas — cada domicílio é entrevistado cinco vezes ao longo de três meses. Na avaliação da pesquisadora Thaís Barcellos, responsável pelo levantamento do IDados, uma consequência desse quadro é que parte dessas pessoas podem não voltar ao mercado no futuro:
Evidências científicas indicam que permanecer muito tempo fora do mercado de trabalho pode dificultar a recolocação. Acrescentando a isso o fato de muitos serem trabalhadores jovens, que já têm dificuldade de acesso ao mercado de trabalho, com baixa escolaridade e que estão deixando de acumular experiência, pode ser um resultado preocupante a longo prazo.

JOVENS TÊM MAIS DIFICULDADES

Esse é o receio de Leandro Pereira da Silva, de 33 anos. Ele foi demitido há exatamente um ano de seu primeiro emprego, após 12 anos de trabalho. Atuava na área logística, com distribuição de livros. Desde então, só conseguiu dois temporários. Ficar fora do mercado é uma preocupação a mais para quem já vive com o dinheiro contado, que vem do aluguel de quitinetes em Inhaúma, Zona Norte do Rio, que construiu com a indenização. Rendem R$ 1.500, mas o valor é dividido com a mãe, que mora no terreno. Como tem um problema de saúde, gasta R$ 400 por mês só com plano.

Ficar afastado desse ambiente, dessa convivência, atrapalha em tudo. Nunca tinha passado por processo seletivo como os de hoje em dia. Os dois que fiz para vagas temporárias foram experiências muito novas — diz Leandro, que pagou R$ 300 para anunciar o currículo on-line.

Segundo a pesquisa, dos desempregados que não conseguiram recolocação em 12 meses, 35% estavam na faixa de 18 a 24 anos, seja porque permaneceram tentando uma vaga sem sucesso ou por terem desistido de procurar.

Kevin Azevedo, de 22 anos, está nesse segundo grupo. Em 2016, chegou a trabalhar como Jovem Aprendiz em uma fabricante de gases industriais. Mas, depois do término do programa, se deparou com as dificuldades da recessão para conseguir um emprego definitivo. Durante o ano passado, distribuiu currículos, mas sem sucesso. Agora mudou de planos: investiu em uma faculdade de Administração de Empresas para melhorar suas chances no futuro.
— Desde fevereiro de 2017 que procuro uma vaga. Sempre pediam nível superior. Cheguei a ter algumas respostas, mas o nível técnico não era o suficiente. Por isso, iniciei a graduação no início deste ano, para ver se tenho mais chances — conta o jovem, que mora com os pais em Bangu, Zona Oeste do Rio. — Chegamos ao mercado justamente em momento de crise, em que as vagas são escassas. Quando as vagas reaparecerem, talvez a gente não sirva mais para o mercado.

ESPECIALISTA DESTACA POLÍTICA DE QUALIFICAÇÃO

O problema é que o mercado de trabalho anda mesmo com pouco fôlego, dizem analistas. Na avaliação do economista Claudio Dedecca, da Unicamp, é a lentidão em reintegrar quem perdeu o emprego na crise que mais preocupa, embora ele pondere que o acesso ao primeiro emprego também esteja influenciando os números.
— Na década de 1970 e 1980, em que a população economicamente ativa chegava a crescer 4%, acontecia de postos serem ocupados por quem estava chegando ao mercado na recuperação de uma crise, em vez de ocorrer a reabsorção dos desempregados. Hoje o contexto é diferente. O crescimento da população economicamente ativa é baixo. Se não estamos reabsorvendo mão de obra, significa que a geração de emprego tem sido muito limitada — afirma.

Para o pesquisador, são necessárias políticas públicas de qualificação para garantir que quem perdeu o emprego não saia de vez do mercado:
— Se é um problema de reabsorção, temos que tratar de requalificação de mão de obra. E nesse exato momento os mecanismos de qualificação estão zerados. As políticas que o FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) deveria fazer neste momento para favorecer uma reabsorção mais rápida da força de trabalho não estão ocorrendo, considerando a crise fiscal.

Já o especialista em trabalho João Saboia, professor do Instituto de Economia da UFRJ, chama a atenção para a qualidade das vagas geradas, a maior parte na informalidade:
— A economia melhorou um pouquinho, passou de uma queda de 3,5% para crescimento de 1%. Ver que metade das pessoas que estavam desocupadas não conseguiram se ocupar é muito negativo. O mercado de trabalho não está bombando. Está gerando ocupação, mas precária.

Pelas contas do economista Thiago Xavier, da Tendências Consultoria, o percentual de informalidade no mercado de trabalho vai de 36,3% a 44,9%, dependendo do tipo de cálculo usado. Em qualquer métrica, ele destaca, esses índices estão próximos aos maiores patamares da série histórica da Pnad Contínua, a atual pesquisa do IBGE sobre emprego, iniciada em 2012:
— Na recessão, todos perdiam vagas. Agora, a gente vê uma mudança na estrutura ocupacional, com crescimento da ocupação muito assentado nas atividades ligadas à informalidade.

Hélio Zylbertajn, professor de Economia da USP especialista em relações de trabalho, lembra que o processo é lento, mas pondera que em 2017 houve avanço. Com base no levantamento do IDados, ele aponta que o percentual de desempregados que se recolocam em um ano chegou a ser de apenas 41% no primeiro trimestre de 2017.
— A proporção de desocupados que conseguem trabalho um ano depois está nesse momento em crescimento. O quadro é de melhora.

Zylbertajn acrescenta, no entanto, que tudo indica que a retomada do mercado será lenta.
— Temos 13 milhões de desempregados e a cada ano entram no mercado 1 milhão de pessoas. Só para manter o mesmo número de desempregados, a gente precisa criar 1 milhão de empregos. Ou seja, vamos diminuir o desemprego, mas vai ser uma coisa lenta. Vai depender muito do ritmo de crescimento — afirma.