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Ociosidade diminuiu pouco desde pior momento da recessão

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

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Ociosidade diminuiu pouco desde pior momento da recessão

A diferença entre o crescimento efetivo e o potencial da economia brasileira ficou negativa em quase seis pontos percentuais no terceiro trimestre, nas estimativas de Bráulio Borges, economista-sênior da LCA Consultores.
 Indústria já corta custos com uso de realidade aumentadaCrédito: Divulgação

Esse nível atual de capacidade ociosa não é mais o recorde – atingido no quarto trimestre de 2016, quando o PIB efetivo estava correndo 7,3 pontos percentuais abaixo do potencial -, mas ainda assim é muito elevado, aponta Borges, também pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

Ele observa que, no auge da última recessão dos EUA, de 2007 a 2009, o chamado "hiato do produto" da economia americana ficou negativo em cerca de 4,5 pontos. O hiato mostra a diferença entre o PIB efetivo e o potencial (aquele que não acelera a inflação). "Mesmo no Brasil não vivemos um hiato nessa ordem de grandeza em outras crises", diz Borges, que destaca também o longo período em que a economia está operando com excesso de ociosidade: 16 trimestres consecutivos.

Isso porque o pífio ritmo de recuperação observado após a crise mais recente é insuficiente para ocupar a folga de recursos existente na economia, explica o economista. Na recessão de 1981 a 1983 e na seguinte, de 1989 a 1992, nota ele, o PIB já havia recuperado o patamar pré-crise sete trimestres após o "fundo do poço" de cada recessão. No ciclo atual, o PIB ainda está cerca de 5% abaixo desse nível.

O modelo usado por Borges para definir o hiato é o mesmo adotado pela Comissão Europeia, que passou a calcular projeções de PIB potencial para países com metas estruturais para o resultado primário das contas públicas (que exclui gastos com juros).

A baixa utilização dos fatores de produção fica clara no mercado de trabalho. Na série dessazonalizada pela LCA, a taxa de desemprego caiu de 13,2% para 12,1% em um ano e meio, sendo que a chamada "taxa natural" de desocupação – que iguala o crescimento real dos salários aos ganhos de produtividade e, por isso, não pressiona a inflação – estaria ao redor de 10%. Na velocidade atual de redução do desemprego, o mercado de trabalho pode levar mais três anos para eliminar a ociosidade, estima.

Uma consequência favorável da elevada folga de capacidade na economia é o ambiente tranquilo para a inflação. Se o câmbio e choques de oferta não atrapalharem, o hiato do produto e as expectativas inflacionárias bem ancoradas permitem que o Banco Central não tenha que se preocupar em apertar a política monetária antes de meados do ano que vem, avalia Borges.

Segundo Marco Maciel, economista-chefe do Banco Pine, a folga no uso dos fatores de produção vai manter a inflação de serviços abaixo da meta em 2019 e também em 2020. Em 2018, a expectativa é que o conjunto que reúne preços como aluguel, empregada doméstica e cabeleireira encerre o ano com alta de apenas 2,7%. "O tempo de hiato do produto negativo coincide com o período em que a inflação e seus núcleos vêm desabando", nota Maciel, que usa um modelo diferente do de Borges para estimar a diferença entre o PIB efetivo e o potencial.

Pelos modelos do Pine – que usam o filtro estatístico de Hodrick-Prescott e a função de produção para calcular o PIB potencial, obtendo o hiato do produto por resíduo -, o PIB estaria correndo hoje cerca de um ponto abaixo do potencial, diferença que deve ser eliminada já em meados de 2019. Além de usar os dois métodos para calcular o hiato, o economista compara a consistência dos resultados com a inflação medida pelo IPCA, que, hoje, está compatível com uma economia que opera com excesso de capacidade ociosa.

A folga no uso dos fatores de produção também tem obviamente efeitos negativos, ponderam os economistas ouvidos. O mais notável deles é a fraqueza dos investimentos, que subiram 6,6% no terceiro trimestre de 2018 inflados por importações contábeis de plataformas de petróleo. Mencionando dados da Fundação Getulio Vargas (FGV), Maciel observa que o Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) na indústria de transformação ficou em 76,4% em outubro, 6,1 pontos abaixo da média histórica do indicador, de 82,5%. "Por que o empresário vai investir com uma capacidade ociosa tão grande?", questiona.

Períodos de hiato do produto negativo também são marcados por queda da produtividade, seja na economia, seja no mercado de trabalho, acrescenta o economista do Pine. "O desalento aumenta, trabalhadores vão para a informalidade, as máquinas e equipamentos nas fábricas são usados menos intensamente, diminuem as horas extras, e a produtividade cai."

Borges, da LCA, lembra de outras duas consequências negativas do excesso de capacidade ociosa na economia: a "sensação térmica" ruim para as famílias e o pouco dinamismo da arrecadação de impostos, especialmente num quadro de restrição fiscal. Mesmo com a atividade em recuperação, o ritmo moroso de alta determina também um ritmo vagaroso de queda do desemprego, situação que deixa as famílias em alerta e pouco confortáveis para expandir seu consumo, diz.

Já em relação à questão fiscal, Borges afirma que o hiato do produto negativo estaria subtraindo cerca de dois pontos do PIB de arrecadação dos governos federal e regionais de receitas recorrentes. "Se o hiato fosse zerado hoje, o resultado primário seria ligeiramente positivo."

Fonte: Valor Econômico

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