Implementar políticas que tenham como objetivo garantir que as crianças que nascem em famílias de baixa renda tenham acesso a mesma educação de qualidade que a das famílias mais ricas é o caminho mais eficiente para reduzir a desigualdade social e o maior desafio do Brasil, afirmou Andreas Schleicher, diretor de educação e de competências da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Não basta distribuir dinheiro, é preciso igualar oportunidade na educação, diz OCDECrédito: Arquivo sindicato

"Os alunos que vêm de famílias mais estruturadas têm muitas portas abertas para uma vida de sucesso. Já as crianças de famílias desfavorecidas têm só uma oportunidade na vida: uma boa escola que lhes permita desenvolver o seu potencial", disse o especialista, acrescentando que, em países desiguais como o Brasil, as crianças mais privilegiadas ficam também com os professores mais qualificados.

"Não podemos mais lidar com a desigualdade apenas redistribuindo o dinheiro. Isso é importante, mas só mexe com as consequências da desigualdade. Precisamos mexer nas oportunidades, nas capacidades das pessoas, que são a origem do problema", afirmou ele, que participou ontem do Encontro Regional de Ministros de Países Ibero-americanos, promovido pelo Ministério da Educação e pela OCDE, além da Secretaria-Geral Ibero-Americana e Fundação Santillana.

"Algumas pessoas dizem que não é possível mudar, que as crianças de países pobres sempre terão educação pior. Pobreza não é destino", afirmou Schleicher, citando que é comum que alunos de condição social similar tenham desempenhos bem distintos na comparação internacional, a depender das políticas adotadas pelos governos de cada um dos países.

O diretor citou o exemplo do Vietnã que, embora tenha gastos em educação considerados baixos pela OCDE, a exemplo do Brasil, tem se saído melhor em avaliações internacionais como o Pisa, que compara o desempenho de alunos de 15 anos que estão matriculados na escola em diferentes países do mundo.

"Vietnã e o Brasil têm muitas coisas em comum, mas duas diferenças importantes. O Vietnã é muito mais bem-sucedido em atrair os melhores professores para as escolas mais pobres. E eles tornam a profissão atraente do ponto de vista intelectual e financeiro", afirmou. "O Brasil é exatamente o oposto. Quanto mais qualificado o professor, maior a probabilidade de que ele vai acabar em uma escola rica", afirmou ele.

Na grande maioria dos países da OCDE, ter a oportunidade de ter mais anos de estudo melhora as chances de empregabilidade. Em 2015, o desemprego entre os alunos com ensino superior era 40% menor do que o desemprego entre os que chegaram só ao ensino médio. "O tamanho dessas diferenças é muito maior no Brasil que nos demais países da OCDE e parceiros", diz a entidade.

Além de aumentar os salários dos professores brasileiros, recomenda o especialista, é importante pensar maneiras de atrair os profissionais mais talentosos para a carreira. "Podemos comparar aos cirurgiões; os melhores querem fazer as cirurgias mais difíceis. Na educação no Brasil, ainda não estamos prontos para isso", afirmou. Mais que investir no treinamento inicial dos professores, na visão de Schleicher, é importante implementar nas escolas sistemas de treinamento continuado em que as melhores práticas sejam constantemente propagadas.

Schleicher elogiou os avanços do país em educação nas últimas décadas, e ações recentes, como a Base Nacional Comum Curricular. "Sou um grande entusiasta da iniciativa, considero uma grande oportunidade de pela primeira vez ter essa visão sobre o que o Brasil quer da educação", afirmou.

"Mas a mudança em sala de aula não vai ocorrer se não se investir na capacidade das pessoas, dos professores", disse o diretor da OCDE, destacando que a formação do professor exige cada vez mais habilidades além do conhecimento técnico. "Tem que ser um pouco assistente social, um pouco psicólogo", diz, citando o exemplo da Finlândia, em que a formação do professor na faculdade envolve aprender nas escolas, com colegas.

Schleicher afirmou também que melhorar o desempenho educacional dos alunos traria benefícios econômicos ao Brasil, já que a força de trabalho mais qualificada levaria ao crescimento econômico mais forte, além de outros impactos sociais positivos

"Se fala muito da recessão no Brasil, mas na verdade, o problema que você tem na educação é uma fonte permanente de recessão, e as pessoas não se dão conta disso", disse. Metade da população entre 25 e 64 anos no Brasil não tem ensino médio completo, mais que o dobro da média da OCDE. 17% sequer completaram a educação básica.

O especialista disse que, além de ineficiente, o gasto em educação no Brasil também é baixo: responde por uma parcela grande do PIB, mas o investimento por aluno é muito menor do que deveria ser, na visão da OCDE. "As crianças que ficarem para trás agora ficarão mais para trás que qualquer geração, porque estamos na era digital", prevê. "Haverá crianças com um ótimo smartphone e uma educação pobre."

 

Não basta distribuir dinheiro, é preciso igualar oportunidade na educação, diz OCDECrédito: Arquivo sindicato

"Os alunos que vêm de famílias mais estruturadas têm muitas portas abertas para uma vida de sucesso. Já as crianças de famílias desfavorecidas têm só uma oportunidade na vida: uma boa escola que lhes permita desenvolver o seu potencial", disse o especialista, acrescentando que, em países desiguais como o Brasil, as crianças mais privilegiadas ficam também com os professores mais qualificados.

"Não podemos mais lidar com a desigualdade apenas redistribuindo o dinheiro. Isso é importante, mas só mexe com as consequências da desigualdade. Precisamos mexer nas oportunidades, nas capacidades das pessoas, que são a origem do problema", afirmou ele, que participou ontem do Encontro Regional de Ministros de Países Ibero-americanos, promovido pelo Ministério da Educação e pela OCDE, além da Secretaria-Geral Ibero-Americana e Fundação Santillana.

"Algumas pessoas dizem que não é possível mudar, que as crianças de países pobres sempre terão educação pior. Pobreza não é destino", afirmou Schleicher, citando que é comum que alunos de condição social similar tenham desempenhos bem distintos na comparação internacional, a depender das políticas adotadas pelos governos de cada um dos países.

O diretor citou o exemplo do Vietnã que, embora tenha gastos em educação considerados baixos pela OCDE, a exemplo do Brasil, tem se saído melhor em avaliações internacionais como o Pisa, que compara o desempenho de alunos de 15 anos que estão matriculados na escola em diferentes países do mundo.

"Vietnã e o Brasil têm muitas coisas em comum, mas duas diferenças importantes. O Vietnã é muito mais bem-sucedido em atrair os melhores professores para as escolas mais pobres. E eles tornam a profissão atraente do ponto de vista intelectual e financeiro", afirmou. "O Brasil é exatamente o oposto. Quanto mais qualificado o professor, maior a probabilidade de que ele vai acabar em uma escola rica", afirmou ele.

Na grande maioria dos países da OCDE, ter a oportunidade de ter mais anos de estudo melhora as chances de empregabilidade. Em 2015, o desemprego entre os alunos com ensino superior era 40% menor do que o desemprego entre os que chegaram só ao ensino médio. "O tamanho dessas diferenças é muito maior no Brasil que nos demais países da OCDE e parceiros", diz a entidade.

Além de aumentar os salários dos professores brasileiros, recomenda o especialista, é importante pensar maneiras de atrair os profissionais mais talentosos para a carreira. "Podemos comparar aos cirurgiões; os melhores querem fazer as cirurgias mais difíceis. Na educação no Brasil, ainda não estamos prontos para isso", afirmou. Mais que investir no treinamento inicial dos professores, na visão de Schleicher, é importante implementar nas escolas sistemas de treinamento continuado em que as melhores práticas sejam constantemente propagadas.

Schleicher elogiou os avanços do país em educação nas últimas décadas, e ações recentes, como a Base Nacional Comum Curricular. "Sou um grande entusiasta da iniciativa, considero uma grande oportunidade de pela primeira vez ter essa visão sobre o que o Brasil quer da educação", afirmou.

"Mas a mudança em sala de aula não vai ocorrer se não se investir na capacidade das pessoas, dos professores", disse o diretor da OCDE, destacando que a formação do professor exige cada vez mais habilidades além do conhecimento técnico. "Tem que ser um pouco assistente social, um pouco psicólogo", diz, citando o exemplo da Finlândia, em que a formação do professor na faculdade envolve aprender nas escolas, com colegas.

Schleicher afirmou também que melhorar o desempenho educacional dos alunos traria benefícios econômicos ao Brasil, já que a força de trabalho mais qualificada levaria ao crescimento econômico mais forte, além de outros impactos sociais positivos

"Se fala muito da recessão no Brasil, mas na verdade, o problema que você tem na educação é uma fonte permanente de recessão, e as pessoas não se dão conta disso", disse. Metade da população entre 25 e 64 anos no Brasil não tem ensino médio completo, mais que o dobro da média da OCDE. 17% sequer completaram a educação básica.

O especialista disse que, além de ineficiente, o gasto em educação no Brasil também é baixo: responde por uma parcela grande do PIB, mas o investimento por aluno é muito menor do que deveria ser, na visão da OCDE. "As crianças que ficarem para trás agora ficarão mais para trás que qualquer geração, porque estamos na era digital", prevê. "Haverá crianças com um ótimo smartphone e uma educação pobre."