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Stranger Things
Estados Unidos, 2016
Criadores: Matt e Ross Duffer

Elenco: Winona Ryder, David Harbour, Finn Wolfhard, Millie Bobby Brown

Stranger Things resgata o que há de pior da cultura e da política da década de 1980, passando ao largo das melhores produções juvenis da época como: A garota de rosa shocking (1986), Clube dos cinco (1985) e O primeiro ano do resto de nossas vidas (1985).

Quem viveu na década de 1980 sabe que foram anos com cara de fim de festa. Foi a década do “pós”, pós psicodelia, pós hippie, pós punk, pós engajamento. O desajuste econômico, a crise social e o limbo cultural deram o tom deste período estrelado por Margareth Thatcher e Ronald Reagan.

Deste contexto emergiu uma arte especialmente sombria, com traços de confusão e esoterismo. As ideias de desajustamento, rejeição, solidão e abandono, resgatadas dos românticos, foram reeditadas com uma roupagem pop, “pós-moderna”.

The Cure, Joy Division, Siouxie & The Banshees, Echo & The Bunnymen, são bons exemplos de como isso funcionou na música, não apenas nas letras e nas melodias, mas também no jogo de cena dos seus atores (os músicos).

Nos filmes, já citados, vemos personagens abatidos pelo tédio e pela limitação de perspectivas, jovens desamparados, acometidos por crises existenciais. São filmes com mensagens certeiras para a juventude da época.

Por outro lado, houve também aqueles que, indiferentes aos novos românticos, expressaram os ideais triunfantes da família tradicional e do sucesso profissional em uma sociedade, feita para poucos, onde o “normal” era ditado pelos padrões norte-americanos.

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Stranger Things tenta trazer para a cena o underground daqueles anos, pincelando aqui e acolá, um traço de Atmosphere (Joy Division), um punhado de Nocturnal Me (Echo & the Bunnymen) e um bom tanto de Should I Stay or Should I Go (The Clash), mas se confunde nas referências e apresenta uma história boba, frouxa, que termina com o triunfo do padrão ditado pelo mainstream.

Até sua principal citação, o filme Os Goonies (1985), aparece de forma empobrecida, limitando-se ao ímpeto dos três garotos frente ao desconhecido. Mesmo em Os Goonies as crianças tinham um semblante mais pesado e desolador, típico da época. Parece que os criadores da série não viveram ou não tão conhecem bem a década de 1980 como o criador de Mad Men (2007) conhece a década de 1960.

O mote central, que é a presença de um ser de outro mundo em uma cidade pacata, resgata a metáfora da ameaça comunista, marcante nos filmes hollywoodianos feitos durante a guerra fria. Esta paranoia estadunidense, que se reinventa de acordo com o cenário político, alimentando a indústria cultural e a indústria bélica, pode, com facilidade, ser ironizada em obras mais inteligentes, como foi nos excelentes filmes O retorno dos tomates assassinos, de 1988, e Blues Brothers, de 1980. Mas Strangers Things não apresenta sinal desta crítica.

No universo das séries falta ainda quem entenderá a dança dos erros, a dinâmica das transformações, os excessos e a profundidade que marcaram a década de 1980, a década perdida.

Trailer Legendado

Carolina Maria Ruy é coordenadora do Centro de Memória Sindical

 

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Stranger Things
Estados Unidos, 2016
Criadores: Matt e Ross Duffer

Elenco: Winona Ryder, David Harbour, Finn Wolfhard, Millie Bobby Brown

Stranger Things resgata o que há de pior da cultura e da política da década de 1980, passando ao largo das melhores produções juvenis da época como: A garota de rosa shocking (1986), Clube dos cinco (1985) e O primeiro ano do resto de nossas vidas (1985).

Quem viveu na década de 1980 sabe que foram anos com cara de fim de festa. Foi a década do “pós”, pós psicodelia, pós hippie, pós punk, pós engajamento. O desajuste econômico, a crise social e o limbo cultural deram o tom deste período estrelado por Margareth Thatcher e Ronald Reagan.

Deste contexto emergiu uma arte especialmente sombria, com traços de confusão e esoterismo. As ideias de desajustamento, rejeição, solidão e abandono, resgatadas dos românticos, foram reeditadas com uma roupagem pop, “pós-moderna”.

The Cure, Joy Division, Siouxie & The Banshees, Echo & The Bunnymen, são bons exemplos de como isso funcionou na música, não apenas nas letras e nas melodias, mas também no jogo de cena dos seus atores (os músicos).

Nos filmes, já citados, vemos personagens abatidos pelo tédio e pela limitação de perspectivas, jovens desamparados, acometidos por crises existenciais. São filmes com mensagens certeiras para a juventude da época.

Por outro lado, houve também aqueles que, indiferentes aos novos românticos, expressaram os ideais triunfantes da família tradicional e do sucesso profissional em uma sociedade, feita para poucos, onde o “normal” era ditado pelos padrões norte-americanos.

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Stranger Things tenta trazer para a cena o underground daqueles anos, pincelando aqui e acolá, um traço de Atmosphere (Joy Division), um punhado de Nocturnal Me (Echo & the Bunnymen) e um bom tanto de Should I Stay or Should I Go (The Clash), mas se confunde nas referências e apresenta uma história boba, frouxa, que termina com o triunfo do padrão ditado pelo mainstream.

Até sua principal citação, o filme Os Goonies (1985), aparece de forma empobrecida, limitando-se ao ímpeto dos três garotos frente ao desconhecido. Mesmo em Os Goonies as crianças tinham um semblante mais pesado e desolador, típico da época. Parece que os criadores da série não viveram ou não tão conhecem bem a década de 1980 como o criador de Mad Men (2007) conhece a década de 1960.

O mote central, que é a presença de um ser de outro mundo em uma cidade pacata, resgata a metáfora da ameaça comunista, marcante nos filmes hollywoodianos feitos durante a guerra fria. Esta paranoia estadunidense, que se reinventa de acordo com o cenário político, alimentando a indústria cultural e a indústria bélica, pode, com facilidade, ser ironizada em obras mais inteligentes, como foi nos excelentes filmes O retorno dos tomates assassinos, de 1988, e Blues Brothers, de 1980. Mas Strangers Things não apresenta sinal desta crítica.

No universo das séries falta ainda quem entenderá a dança dos erros, a dinâmica das transformações, os excessos e a profundidade que marcaram a década de 1980, a década perdida.

Trailer Legendado

Carolina Maria Ruy é coordenadora do Centro de Memória Sindical