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São Paulo (SP): Nova economia aumenta risco de estresse

segunda-feira, 27 de junho de 2011

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São Paulo (SP): Nova economia aumenta risco de estresse

A substituição dos sistemas clássicos da industrialização por uma nova economia de serviços criou nos trabalhadores a necessidade de lidar com o público e atuar em equipe. A consequência disso é o aumento dos chamados riscos psicossociais no trabalho como estresse e assédio. Essa é a opinião do psicólogo espanhol Eusebio Rial González, chefe do observatório de risco da Agência Europeia para a Segurança e a Saúde no Trabalho.

De acordo com ele, os chefes precisam prestar atenção nos subordinados e encorajá-los a encontrar soluções para os seus problemas. ‘Achar que apenas os líderes sofrem com o estresse é um mito’, afirma. No Brasil para participar de um congresso da International Stress Management Association (Isma-BR), em Porto Alegre, González concedeu ao Valor a seguinte entrevista:

Valor: O que são riscos psicossociais e quais os mais frequentes no trabalho?

Eusebio Rial González: São os riscos à saúde mental dos funcionários que podem surgir da maneira como o trabalho é determinado, gerenciado e organizado. Os principais são o estresse, a violência e o assédio. Eles são considerados ‘riscos emergentes’, mas isso não significa que sejam novos. O fato é que hoje é dedicada mais atenção a esses problemas. Nas últimas décadas, os sistemas clássicos da industrialização foram substituídos por uma nova economia de serviços. Isso criou nos trabalhadores a necessidade de lidar com o público e atuar em equipe. A consequência disso é o aumento dos chamados riscos psicossociais, uma vez que as relações humanas no trabalho ficam cada vez mais complexas e interligadas. Além disso, muitas companhias reestruturaram e reduziram seus quadros, aumentaram sua dependência de práticas como terceirização, trabalho temporário e implementaram métodos como a produção enxuta. Essas estratégias visam aumentar os lucros e cortar os custos, mas também resultam na intensificação do trabalho e na preponderância de contratos precários, que levam à sensação crescente de insegurança no emprego.

Valor: Como esses riscos podem ser minimizados?

González: O líder precisa prestar atenção nos seus subordinados, perguntar a eles quais problemas estão enfrentando e encorajá-los a buscar soluções. Em todos os setores, e especialmente no de serviços, os trabalhadores são o melhor recurso de qualquer companhia. Isso se aplica particularmente às pequenas e médias empresas, pois elas têm uma capacidade menor de redistribuir o trabalho, de treinar novos funcionários e dependem mais das interações pessoais. Quando você perde um funcionário, pode também perder clientes.

Valor: Como o senhor vê esse problema em mercados emergentes como o do Brasil?

González: O Brasil se tornou um participante fundamental no cenário econômico mundial e acredito que ele trará uma conscientização renovada de que não podemos conduzir os negócios ‘como sempre’. O crescimento de uma economia não pode ocorrer em detrimento de seu povo. A segurança e a saúde no trabalho podem, e devem, ter um papel importante no desenvolvimento de uma economia sustentável. Países como o Brasil estão certos por se preocuparem com a sustentabilidade de seus recursos naturais, por razões morais e econômicas. É preciso garantir que essa mesma preocupação exista, e pelas mesmas razões, para se conseguir uma ‘vida no trabalho sustentável’. Caso contrário a economia e a força de trabalho irão florescer, mas também murchar rapidamente.

Valor: Quais níveis da força de trabalho estão mais vulneráveis aos riscos psicossociais?

González: Achar que apenas os líderes sofrem com o estresse é um mito. Esse é um problema que pode afetar qualquer um, independentemente de idade, raça, saúde, condição social, ocupação e setor. É claro que algumas pessoas são mais vulneráveis que outras, mas todos nós temos um ponto de ruptura. Um dos principais fatores de risco é o baixo controle sobre o trabalho. Ou seja, a falta de autonomia para decidir o que fazer, como e quando. E são exatamente os líderes que gozam de mais liberdade, poder, status e recursos para lidar com as demandas do trabalho. Portanto, o presidente-executivo de uma companhia de ônibus não sofre mais estresse que os motoristas. O que muda é o tipo e os fatores que provocam esse estresse.

Valor: Como as companhias vão lidar com os riscos psicossociais nos próximos anos? Elas estão cientes do tamanho do problema?

González: A preocupação está aumentando, mas ainda está longe do ideal, particularmente nas pequenas empresas – que na verdade são a grande maioria. E se elas não sabem que têm um problema, não tomam medidas para solucioná-lo. Quando os riscos psicossociais se tornam visíveis com altas taxas de absenteísmo, por exemplo, já é tarde demais para impedir danos às pessoas e à empresa. Os riscos vão crescer na medida em que o mercado continuar seguindo no rumo da terceirização e das ‘economias do conhecimento’, ainda mais dependentes do bem-estar mental de seus trabalhadores. Grandes empresas que possuem recursos e interesse em detectar os tipos de riscos aos negócios, sejam eles financeiros, ambientais ou relacionados a questões de recursos humanos, estão dando muita atenção à prevenção e gerenciamento do estresse.

Valor: Investir na prevenção desse tipo de risco, então, é essencial para a sobrevivência dos negócios?

González: Cuidar da saúde e segurança dos trabalhadores é uma obrigação legal e um dever, mas não devemos nos esquecer de que isso também faz sentido do ponto e vista dos negócios. Cortar investimentos em saúde e itens ligados às pessoas é um erro pelo qual as companhias vão pagar. Talvez não imediatamente, mas no médio prazo, quando as empresas com equipes mais saudáveis e motivadas seguirão com seus negócios.

Fonte: Informações do jornal Valor

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