Menu

Mapa do site

Emissão de boleto

Nacional São Paulo

Emissão de boleto

Nacional São Paulo
8 OUT 2025

Imagem do dia

Seminário Pré-COP30; FOTOS

Imagem do dia - Força Sindical

Enviar link da notícia por e-mail

Assuntos Raciais

Brasil viveu um processo de amnésia nacional sobre a escravidão, diz historiadora

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Assuntos Raciais

Brasil viveu um processo de amnésia nacional sobre a escravidão, diz historiadora

Sancionada pela princesa Isabel no dia 13 de maio de 1888, a lei que aboliu a escravidão após mais de três séculos de trabalho forçado no Brasil 'saiu muito curta, muito pequena, muito conservadora', descreve Lilia Moritz Schwarcz.
Estado é condenado por revista abusiva a negroCrédito: Divulgação

Em entrevista à BBC Brasil, a historiadora diz que as consequências dessa virada de página abrupta, sem políticas para incluir os ex-escravos à sociedade, são sofridas até hoje.

    O legado de negros muçulmanos que se rebelaram na Bahia antes do fim da escravidão
    'Grito muito, mas quero eco', diz Elza Soares sobre combate ao racismo

"O que vemos hoje no país é uma recriação, uma reconstrução do racismo estrutural. Nós não somos só vítimas do passado. O que nós temos feito nesses 130 anos é não apenas dar continuidade, mas radicalizar o racismo estrutural", considera Schwarcz, professora do Departamento de Antropologia da USP e autora, entre outros livros, de O Espetáculo das Raças, As Barbas do Imperador, Racismo no Brasil e Brasil: uma biografia.

Como parte dos eventos para marcar os 130 anos da abolição, Schwarcz lança nesta sexta-feira (11/05) o Dicionário da Escravidão e Liberdade – 50 textos críticos (Companhia das Letras), em coautoria com o historiador Flávio dos Santos Gomes. Schwarcz é também cocuradora da exposição Histórias Afro-Atlânticas, que será aberta no Masp e no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, no fim de junho.

"Estamos politizando essa data e deixando bem claro que é preciso lembrar para não esquecer. Mas não é possível celebrar", afirma.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

BBC Brasil – Na sua visão, nesses 130 anos desde a abolição, no que o país avançou e no que está parado?

Lilia Schwarcz – Não há motivo algum para celebrar. O Brasil foi o ultimo país do Ocidente a abolir a escravidão. Às vezes as pessoas falam que foi o último das Américas, mas não. De fato, era chamado na época de 'retardão'. Tardou demais. As estatísticas oscilam, mas indicam que o país teria recebido entre 38% a 44% da quantidade absoluta de africanos obrigados a deixar o continente. E teve escravos em todo o seu território, diferente dos EUA, por exemplo, que no Sul tinha um modelo semelhante ao nosso, mas no norte tinha outro modelo econômico.

Quando veio a Lei Áurea, em 1888, ela saiu muito curtinha, muito pequena, muito conservadora. "Não há mais escravos no Brasil, revogam-se as posições em contrário". Corria no plenário uma série de propostas, algumas ainda mais conservadoras, outras mais progressistas.

BBC Brasil – Como esses grupos mais conservadores reagiram à abolição?

Lilia Schwarcz – A queda imediata do Império (é resultado da reação desses grupos). A Lei Áurea foi a lei mais popular do Império e a última. Como não se previram indenizações, os grandes produtores de café, até então vinculados ao Império, se bandearam para as fileiras dos republicanos.

A abolição foi um processo de luta da sociedade brasileira. Não foi uma lei. Não foi um presente da princesa (Isabel), como romanticamente se diz. Muitos setores de classe média e de profissionais liberais aderiram à causa abolicionista, que vira suprapartidária na década de 1880. É importante destacar sobretudo a atuação dos escravizados, dos negros, dos libertos, que pressionaram muito o tempo todo, seja por insurreições, seja por rebeliões coletivas, rebeliões individuais, suicídios, envenenamentos.

    A abolição foi um processo de luta da sociedade brasileira. Não foi uma lei. Não foi um presente da princesa Isabel

BBC Brasil – Qual foi o simbolismo da lei no momento em que foi assinada?

Lilia Schwarcz – A assinatura do documento foi um ritual caprichadíssimo. Para se ter uma ideia, foram criados tipos novos para a composição da Lei Áurea. O pai do (escritor) Lima Barreto, João Henriques, participou de um grupo de tipógrafos que estavam emocionados com a lei, e compuseram tipos novos para o documento, assinado pela princesa com uma caneta valiosíssima. Todo o ritual teve muito apelo popular. A famosa foto da época (de uma multidão reunida do lado de fora do Paço Imperial, no Centro do Rio, para a assinatura da lei), mostra que a população compareceu, e é possível reconhecer bandeiras de irmandades negras que foram comemorar a abolição.

O ritual tinha tudo para encantar, e encantou. Tanto que mais tarde vimos a população liberta conformar a Guarda Negra, que era contra a República e a favor do Império. Hoje, muita gente pode achar isso uma grande contradição. Não é. Na época, a compreensão era que o Império tinha garantido o final da escravidão, e ninguém sabia o que viria com a República. Havia muito medo de projetos de reescravização. Estava tudo muito instável, nebuloso.

Hoje, sabemos que o ritual era parte da estratégia de dom Pedro 2º, que não estava no país, para garantir o Terceiro Reinado nas mãos de Isabel. A ideia era que a lei tornaria Isabel tão popular que impediria os projetos republicanos e garantiria a sucessão e manutenção do regime monárquico. O que não aconteceu. Mas o ritual foi realizado com grande pompa e circunstância, com o objetivo de fazer emocionar, e de fato emocionou.

BBC Brasil – Quais eram os principais vícios da lei?

Lilia Schwarcz – A lei simplesmente abolia. Dizia que a partir desta data não há mais escravos no Brasil. Ponto final.

A República, que viria um ano e meio depois, tentaria colocar uma pedra no tema da escravidão. Como se tivesse ficado morto no passado junto com o Império. Temos um hino da República, aquele que canta "liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós". E há uma estrofe que diz: "Nós nem cremos que escravos outrora tenha havido em tão nobre país". Ou seja, um ano e meio depois, (os republicanos) afirmavam não acreditar mais (que tivesse havido escravidão). Era um processo de amnésia nacional.

BBC Brasil – Quais foram as consequências imediatas desta abolição sem salvaguardas?

Lilia Schwarcz – O (momento) pós-emancipação não teve nenhuma preocupação com inclusão dessas populações (de ex-escravos). Eu me refiro a educação, saúde, habitação, todos os problemas estruturais.

Mas isso não quer dizer que a gente só deva culpar o passado. O que vemos hoje no país é uma recriação, uma reconstrução do racismo estrutural. Nós não somos só vítimas do passado. O que nós temos feito nesses 130 anos é não apenas dar continuidade, mas radicalizar o racismo estrutural.

BBC Brasil – As gerações pós-Holocausto viveram o choque com a barbaridade e os horrores da Alemanha nazista. Você acha que no Brasil pós-escravidão houve um senso de choque posterior, uma percepção de que o país perpetrou barbaridades?

Lilia Schwarcz – Aqui no Brasil, não. Você teve essa percepção em outros lugares. E existem alguns memoriais espalhados pelo mundo que falam do que foi a escravidão, como o memorial da abolição em Nantes, na França.

No Brasil, qual foi o suposto? Que a escravidão era a lei. Era legal. E durante muito tempo foi naturalizada. A ideia da naturalização é terrível. Sempre se mostrou uma escravidão muito benéfica. Basta vermos as imagens que passam a ideia de uma escravidão ordeira, tranquila. Como se isso fosse possível, em um sistema que pressupõe a posse de um homem por outro.

Só muito recentemente é que foi se colocando em pauta a dimensão da chacina, e o fato de a escravidão mercantil da era moderna ter produzido a maior diáspora vista no mundo depois de Roma.

té o movimento negro contestar a data de 13 de maio, a data era uma data cívica. Era celebrada. Era despolitizada. Atualmente, estamos politizando essa data e deixando bem claro que é preciso lembrar para não esquecer. Mas não é possível celebrar.

BBC Brasil – Ganha força um movimento de cobrança por essa dívida histórica?

Lilia Schwarcz – Eu penso que sim. O movimento internacional por cotas e políticas de ação afirmativa é uma tentativa de cobrar essa dívida histórica. Essa discussão começa no Brasil tarde, no fim dos anos 1970, e demora para pegar.

Os dados do censo vêm mostrando como o país é profundamente desigual. Quando comparamos marcadores sociais da diferença, como classe e raça, vemos que raça é sempre um agravante.

    Sabemos que os negros têm menos acesso a educação. Têm menos acesso a saúde. Têm menos acesso a transporte. Morrem antes. São dados radicais que estamos recriando

Estamos matando uma geração de negros e negras no Brasil. Sabemos que os negros têm menos acesso a educação. Têm menos acesso a saúde. Têm menos acesso a transporte. Morrem antes. São dados radicais que estamos recriando. Eu acho que ações desse tipo (as cotas raciais) são importantes porque há momentos em que é preciso desigualar para depois igualar. Não se pode falar em uma meritocracia universal num país tão desigual como o Brasil.

BBC Brasil – A eleição da Marielle Franco no Rio foi um exemplo da força que movimentos em prol da igualdade racial e de gênero vêm ganhando. Como você compara a força desses movimentos hoje com o que acontecia na sua juventude?

Lilia Schwarcz – A minha geração viu o crescimento dos direitos civis, do direito à diferença na universalidade, e se orgulhou muito dessas novas conquistas. Acho que, no Brasil e no mundo, nós acreditamos que essas conquistas democráticas estavam de alguma maneira asseguradas.

O que estamos vendo agora é um momento claro de crise e recessão democrática, colocando em risco essas conquistas.

A morte da Marielle representa muito esse momento. Depois de 30 anos de conquistas democráticas, começamos a ver que direitos não são conquistados para sempre.

É absolutamente simbólico que sua morte tenha ocorrido bem no ano dos 130 anos da abolição. A Marielle usou das franjas do sistema. Ela se formou na Maré, entrou na PUC por política de cotas, fez valer o seu mérito, virou uma das vereadoras mais votadas no Rio por sua pauta de inclusão racial e de gênero. Sua morte ainda sem respostas é outro escândalo da nossa democracia.

BBC Brasil – No livro Brasil: Uma Biografia, você e a historiadora Heloisa Starling dizem que o país é uma obra ainda em aberto, e questionam se conseguiria consolidar a república e a democracia. Recentemente, a perspectiva ficou mais pessimista?

Lilia Schwarcz – Quando terminamos o livro, estávamos encantadas, Heloisa e eu, com as passeatas de 2013, com as manifestações, com a ideia de um Brasil mais plural, mais vigilante. Acho que todos ficamos. O que não notamos era que existiam dois grupos que desfilavam na avenida (nos protestos de 2013). Sabíamos, mas depois ficou mais claro. Um que queria esse Brasil diferente, mais plural, mais inclusivo, mais variado; e outro que também queria um Brasil diferente, mas que, de alguma maneira, estava colocando tudo na conta de Dilma Rousseff e de um partido. Um Brasil que queria não pluralidade, mas de fato eliminar o adversário.

Ideologias políticas à parte, acho que o impeachment da presidente Dilma abriu a tampa da democracia no Brasil e deu lugar para a política de ódios, de intolerância. A temperatura política acabou derretendo as nossas instituições. Quando escrevemos Brasil: Uma Biografia, Heloisa e eu dizíamos que a democracia estava forte porque as instituições estavam consolidadas, mas a república ia muito mal. Agora vemos que tanto a república como a democracia vão muito mal, com as instituições muito enfraquecidas e o descrédito da política e dos partidos. Vivemos um momento que pede muita vigilância.

BBC Brasil – Nessa atual conjuntura, como você vê o cenário para as eleições deste ano?

Lilia Schwarcz – Quem diz que sabe, mente. Não vejo nenhum sinal agora que permita comentar como vai ser a composição dos partidos, quem vai se apresentar de fato. Há muitos sinais para ficar em alerta. É preciso aguardar.

Fonte: BBC Brasil

Últimas de Assuntos Raciais

Todas de Assuntos Raciais
Nota Oficial do Sindec
Força 27 FEV 2026

Nota Oficial do Sindec

Apoio e solidariedade aos trabalhadores pneumáticos da Argentina
Força 27 FEV 2026

Apoio e solidariedade aos trabalhadores pneumáticos da Argentina

Workshop na FTTRESP reforça voto consciente no movimento sindical
Força 27 FEV 2026

Workshop na FTTRESP reforça voto consciente no movimento sindical

Pesquisa da Unicamp rebate ataques à redução da jornada
Força 27 FEV 2026

Pesquisa da Unicamp rebate ataques à redução da jornada

Reunião esclarece prorrogação de mandato na Força Sindical
Força 26 FEV 2026

Reunião esclarece prorrogação de mandato na Força Sindical

Mobilização mira PEC contra escala 6×1 no Congresso
Força 26 FEV 2026

Mobilização mira PEC contra escala 6×1 no Congresso

Curso sobre Orçamento Municipal segue até sexta (27) no Sindnapi
Força 25 FEV 2026

Curso sobre Orçamento Municipal segue até sexta (27) no Sindnapi

Atletas 60+ disputam Jogos da Melhor Idade 2026 em Araçatuba
Força 25 FEV 2026

Atletas 60+ disputam Jogos da Melhor Idade 2026 em Araçatuba

Sincomerciários mobiliza comércio por escala 5×2 em São Carlos
Força 25 FEV 2026

Sincomerciários mobiliza comércio por escala 5×2 em São Carlos

Sindicalistas debatem conjuntura industrial no setor da borracha
Força 25 FEV 2026

Sindicalistas debatem conjuntura industrial no setor da borracha

Sindicalistas debatem agenda política e sindical
Força 25 FEV 2026

Sindicalistas debatem agenda política e sindical

Congresso Nacional em foco: mobilização pelo fim da escala 6×1
Força 25 FEV 2026

Congresso Nacional em foco: mobilização pelo fim da escala 6×1

94 anos do voto feminino: democracia, luta e compromisso
Artigos 24 FEV 2026

94 anos do voto feminino: democracia, luta e compromisso

Greve na Brose completa 28 dias por melhores condições
Força 24 FEV 2026

Greve na Brose completa 28 dias por melhores condições

Força reforça apoio à greve na Brose
Força 24 FEV 2026

Força reforça apoio à greve na Brose

Direitos e condições de trabalho no Brasil em pauta
Força 24 FEV 2026

Direitos e condições de trabalho no Brasil em pauta

Miguel Torres convoca para mobilização pelo fim da escala 6×1
Força 24 FEV 2026

Miguel Torres convoca para mobilização pelo fim da escala 6×1

Sindicato na pista: fiscalização garante pagamento de retroativos em Barra Mansa
Força 24 FEV 2026

Sindicato na pista: fiscalização garante pagamento de retroativos em Barra Mansa

Fórum Nacional abre Março Mulher 2026 com ato no Brás
Força 23 FEV 2026

Fórum Nacional abre Março Mulher 2026 com ato no Brás

Diretoria metalúrgica debate lutas e agenda do trabalho
Força 23 FEV 2026

Diretoria metalúrgica debate lutas e agenda do trabalho

Força Sindical debate agenda jurídica estratégica de 2026
Força 23 FEV 2026

Força Sindical debate agenda jurídica estratégica de 2026

Miguel Torres alerta para reação ao fim da escala 6×1
Força 23 FEV 2026

Miguel Torres alerta para reação ao fim da escala 6×1

Executiva da Força Sindical prorroga mandato da diretoria
Força 20 FEV 2026

Executiva da Força Sindical prorroga mandato da diretoria

Metalúrgicos SP preparam ações do Março Mulher e combate ao feminicídio
Força 20 FEV 2026

Metalúrgicos SP preparam ações do Março Mulher e combate ao feminicídio

Químicos de Itapetininga entregam kits escolares a associados
Força 20 FEV 2026

Químicos de Itapetininga entregam kits escolares a associados

Justiça condena terceirização irregular em postos de combustíveis
Força 20 FEV 2026

Justiça condena terceirização irregular em postos de combustíveis

Nota das centrais – Todo apoio à Greve Geral na Argentina
Força 19 FEV 2026

Nota das centrais – Todo apoio à Greve Geral na Argentina

“O Metalúrgico” reforça sindicalização e divulga APP do Sindicato
Força 19 FEV 2026

“O Metalúrgico” reforça sindicalização e divulga APP do Sindicato

Força Sindical SC promove debate sobre agenda 2026
Força 19 FEV 2026

Força Sindical SC promove debate sobre agenda 2026

Argentina: histórica fábrica de pneus fecha e ameaça empregos; Sintrabor se solidariza
Força 19 FEV 2026

Argentina: histórica fábrica de pneus fecha e ameaça empregos; Sintrabor se solidariza

Aguarde! Carregando mais artigos...