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The Americans
Criador Joseph Weisberg
Transmissão original do canal FX 30 de Janeiro de 2013 – presente
Primeira à terceira temporada disponível na Netflix
4 temporadas 39 episódios
Elenco: Keri Russell, Matthew Rhys, Noah Emmerich, Holly Taylor e Keidrich Sellati

Por Carolina Maria Ruy

Em discurso na Associação Nacional de Evangélicos, em Orlando, Flórida, no dia 8 de março de 1983, Ronald Reagan, então presidente dos EUA, usou pela primeira vez a expressão "império do mal" ao se referir à União Soviética. Ele falou de “impulsos agressivos de um império do mal” e que a URSS pregava “a supremacia do Estado, declarando sua onipotência sobre o homem individual e prevendo sua dominação eventual de todos os povos da Terra”.

Tal referência historicamente brutal encerra a terceira temporada da série The Americans.

A série, que se inicia no ano de 1981, justamente após a eleição de Reagan, mostra a vida cotidiana do casal de espiões do Komitet Gosudarstvennoi Bezopasnosti, ou KGB, Nadezhda e Mischa. Treinados pelo governo soviético eles se fazem passar por Phillip e Elizabeth Jennings, em uma típica família norte americana, com os filhos Henry e Paige, enquanto coletam informações importantes sobre os planos militares e estratégicos dos EUA.

Clique na imagem e veja o trailerthe-americans-season-4-image-3

O discurso na Associação de Evangélicos aparece de maneira muito sutil, fechando o episódio chamado “Oito de março de 1983”. Sutilezas, aliás, dão o tom da série. Embora ela retrate a vida de espiões vivendo em território inimigo, ela não apela para muitas cenas de ação ou violência física. Tais elementos surgem quando são essenciais para compor uma história permeada por tensão, segredos e ansiedade.

Naquele dia oito de março, a falsa família Jennings vivia uma crise real. Phillip, mais adaptado ao mundo capitalista que sua parceira, encontrava-se mergulhado em um profundo conflito existencial, enquanto muitos à sua volta também sofriam pelas contradições inevitáveis que se abatiam sobre a família.

Mas, se do ponto de vista do expectador a crise de Phillip é natural e desperta compaixão, do ponto de vista da organização russa e de uma de suas mais fiéis soldadas, Elizabeth, os problemas pessoais e subjetivos são menores frente àquela situação. Desta forma, assistimos a uma fria Elizabeth virar o rosto para a TV, mesmo diante de um dos mais dolorosos desabafos do marido. Ela ouve Reagan usar o termo "império do mal" e ela sabe o que está fazendo ali.

A caracterização do casal é tão humana e generosa que quase não conseguimos vê-los como agentes capazes de qualquer ação pela nação soviética. E é aí que a série sutilmente aponta sua tendência. O casal, já inevitavelmente americanizado, habituados ao conforte da liberdade de consumo, vive este dilema como dois “pobres agentes russos”.

A reconstituição da década de 1980, os vários disfarces usados pelos agentes, o núcleo paralelo do FBI e a organização russa, agregam grande interesse à série. Ela não entra na questão política e ideológica que opõe o socialismo e o capitalismo. Apenas tangencia estas questões com comentários esparsos sobre as diferenças do modo de vida nos dois países. A série vale, entretanto, por resgatar um debate que, falsamente, parecia superado: a guerra fria.

Carolina Maria Ruy é coordenadora do Centro de Memória Sindical

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The Americans
Criador Joseph Weisberg
Transmissão original do canal FX 30 de Janeiro de 2013 – presente
Primeira à terceira temporada disponível na Netflix
4 temporadas 39 episódios
Elenco: Keri Russell, Matthew Rhys, Noah Emmerich, Holly Taylor e Keidrich Sellati

Por Carolina Maria Ruy

Em discurso na Associação Nacional de Evangélicos, em Orlando, Flórida, no dia 8 de março de 1983, Ronald Reagan, então presidente dos EUA, usou pela primeira vez a expressão "império do mal" ao se referir à União Soviética. Ele falou de “impulsos agressivos de um império do mal” e que a URSS pregava “a supremacia do Estado, declarando sua onipotência sobre o homem individual e prevendo sua dominação eventual de todos os povos da Terra”.

Tal referência historicamente brutal encerra a terceira temporada da série The Americans.

A série, que se inicia no ano de 1981, justamente após a eleição de Reagan, mostra a vida cotidiana do casal de espiões do Komitet Gosudarstvennoi Bezopasnosti, ou KGB, Nadezhda e Mischa. Treinados pelo governo soviético eles se fazem passar por Phillip e Elizabeth Jennings, em uma típica família norte americana, com os filhos Henry e Paige, enquanto coletam informações importantes sobre os planos militares e estratégicos dos EUA.

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O discurso na Associação de Evangélicos aparece de maneira muito sutil, fechando o episódio chamado “Oito de março de 1983”. Sutilezas, aliás, dão o tom da série. Embora ela retrate a vida de espiões vivendo em território inimigo, ela não apela para muitas cenas de ação ou violência física. Tais elementos surgem quando são essenciais para compor uma história permeada por tensão, segredos e ansiedade.

Naquele dia oito de março, a falsa família Jennings vivia uma crise real. Phillip, mais adaptado ao mundo capitalista que sua parceira, encontrava-se mergulhado em um profundo conflito existencial, enquanto muitos à sua volta também sofriam pelas contradições inevitáveis que se abatiam sobre a família.

Mas, se do ponto de vista do expectador a crise de Phillip é natural e desperta compaixão, do ponto de vista da organização russa e de uma de suas mais fiéis soldadas, Elizabeth, os problemas pessoais e subjetivos são menores frente àquela situação. Desta forma, assistimos a uma fria Elizabeth virar o rosto para a TV, mesmo diante de um dos mais dolorosos desabafos do marido. Ela ouve Reagan usar o termo "império do mal" e ela sabe o que está fazendo ali.

A caracterização do casal é tão humana e generosa que quase não conseguimos vê-los como agentes capazes de qualquer ação pela nação soviética. E é aí que a série sutilmente aponta sua tendência. O casal, já inevitavelmente americanizado, habituados ao conforte da liberdade de consumo, vive este dilema como dois “pobres agentes russos”.

A reconstituição da década de 1980, os vários disfarces usados pelos agentes, o núcleo paralelo do FBI e a organização russa, agregam grande interesse à série. Ela não entra na questão política e ideológica que opõe o socialismo e o capitalismo. Apenas tangencia estas questões com comentários esparsos sobre as diferenças do modo de vida nos dois países. A série vale, entretanto, por resgatar um debate que, falsamente, parecia superado: a guerra fria.

Carolina Maria Ruy é coordenadora do Centro de Memória Sindical