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Memória Sindical

1º de Maio da Praça da Sé em 1968

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Memória Sindical

1º de Maio da Praça da Sé em 1968

 Carolina Maria Ruy*

O principal alvo da ditadura militar de 1964 foi o movimento sindical. Ainda que tal sentença soe repetitiva, cabe reforçar sua lembrança antes que ela seja paulatinamente desbotada da memória e sequestrada por uma versão, por assim dizer, “elitista” sobre a história da resistência contra a opressão daquele período.O golpe atingiu em cheio o sindicalismo justamente porque seu objetivo maior era implantar um modelo econômico atrelado ao capitalismo estadunidense.

E, como medida para atingir este objetivo, em julho de 1965 a Lei nº 4.725 estabeleceu normas para os processos dos dissídios, instituindo uma prática de reajuste salarial abaixo da inflação, o chamado arrocho. Segundo dados do Dieese, esta política reduziu o rendimento do trabalhador em 15,9%, em 1965, e em 15,3%, em 1966.
E foi devido a esta situação de vultosas perdas que trabalhadores representados por mais de 40 Sindicatos – entre eles, os Sindicatos dos Metalúrgicos de São Paulo, Santo André, Guarulhos, Campinas e Osasco – resolveram se unir para criar, em outubro de 1967, o Movimento Intersindical Antiarrocho (MIA).

A ideia era que o MIA servisse como uma frente para pressionar o governo a acabar com o arrocho salarial. Para isso uma agenda de atividades foi planejada logo nas primeiras reuniões do movimento. Elas culminariam com uma ação de boicote ao ato político oficial do Dia do Trabalhador, em 1º de Maio de 1968, na Praça da Sé (SP).
Entretanto, não demorou para que as divergências sobre a condução e a postura do movimento se chocassem no interior do MIA. Enquanto para a maioria dos sindicalistas aquele deveria ser um espaço de ação moderada, e até com a possibilidade de diálogo com o governo, para os metalúrgicos do Grupo de Esquerda de Osasco, entre eles José Ibrahin (presidente do Sindicato dos Metalúrgicos), aquela organização representava uma frente de luta contra a ditadura e a estrutura sindical vigente.

Mas, mesmo com o enfraquecimento do MIA, os sindicalistas que se mantiveram no movimento se concentraram na realização do boicote à festa do trabalhador realizada pelo governo. Para isso, toda a ação foi calculada, desde o mapeamento da Praça da Sé, seus lugares de entrada e saída, até a criação de um grupo de autodefesa, com 60 barras de ferro embrulhadas em jornais.

Chegado o dia 1º de Maio de 1968, estudantes e trabalhadores liderados pelo grupo de Osasco infiltraram-se entre o público do evento e iniciaram um tumulto quando o governador biônico Roberto de Abreu Sodré já estava no local. Sodré, seus assessores e até a polícia foram expulsos do palanque, que foi incendiado pelos ativistas.
O metalúrgico José Campos Barreto, o Zequinha, tomou então a palavra exigindo o fim da ditadura militar, o apoio à revolução cubana (de 1959), o fim do arrocho salarial e o apoio à greve de Contagem, ocorrida há menos de um mês.

Segundo o historiador Márcio Amêndola, após a destruição do palanque os mais de 1.500 manifestantes saíram em passeata gritando palavras de ordem contra o regime militar. Ao chegar à Praça da República diversos discursos foram proferidos, sendo o de Zequinha o mais inflamado e audacioso: ele conclamou os trabalhadores e estudantes do País a enfrentarem a ditadura por meio da luta armada.

A ação do dia 1º de maio de 1968 na Praça da Sé já atinava para a realização da greve dos metalúrgicos de Osasco, iniciada na empresa Cobrasma em 16 de junho daquele ano. Embora todos aqueles movimentos contra o arrocho salarial e contra a ditadura militar tenham sido reprimidos com violência e, embora depois deles a desigualdade social tenha se aprofundado no Brasil, as greves de Contagem (MG), de Osasco (SP), o MIA e o 1º de Maio da Praça da Sé entraram para a história como símbolos de luta e de resistência.

Seu legado seria retomado uma década depois, com o ressurgimento do movimento sindical e declínio do regime.

*Carolina Maria Ruy é jornalista, coordenadora de projetos do Centro de Cultura e Memória Sindical
 

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