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Nova York (EUA): Negros sofrem mais com a crise econômica nos EUA

sexta-feira, 15 de julho de 2011

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Nova York (EUA): Negros sofrem mais com a crise econômica nos EUA

Em sua infância como negra, na segregacionista década de 1960, Deborah Goldring teve de dividir a cama com mais uma pessoa, foi despejada de vários apartamentos e viu seu padrasto subir em postes de energia elétrica para religar a luz da casa, cortada. Mas Deborah conseguiu sair da pobreza e conquistar uma vida de classe média – até a Grande Recessão.

Primeiro, o marido de Deborah ficou doente e eles empenharam toda a sua poupança para custear casas de repouso até ele morrer. Depois, Deborah perdeu seu emprego de assistente-executiva no hospital de Baltimore, onde trabalhou por 17 anos. O golpe mais cruel foi uma carta do banco, anunciando a intenção de arrestar a casa onde morava havia quase três décadas, por falta de pagamento.

Milhões de americanos enfrentaram calamidades financeiras semelhantes durante a recessão. Mas, para Deborah e muitos outros da comunidade negra, para a qual o desemprego ainda está crescendo, a perda do emprego as alijou da classe média, reconduzindo-as à pobreza. Algumas delas veem nisso até mesmo uma anulação histórica dos ganhos econômicos duramente conquistados que os negros levaram décadas para alcançar.

Deborah se lembra da mãe vedando as janelas para que ninguém os visse roubando energia elétrica. Lembra-se de cada vez em que ficou sentada no meio-fio com os três irmãos, cercados pelos pertences da família, esperando um novo lugar para morar. Ao ver-se sentada no meio-fio, ela prometeu nunca deixar de pagar suas contas em dia.

Agora, ao se ver novamente pobre, ‘a única palavra que me ocorre é ´arrasada´’, diz Deborah, 58.

‘Vivemos aquela vida em que nos sentíamos tão à vontade, nunca tivemos de nos preocupar com a situação financeira, sempre tínhamos dinheiro; com isso eu pude ajudar meus filhos e meus netos. Agora tenho de ligar para a minha filha para tomar US$ 100 emprestados porque não posso pagar uma conta…’, afirmou Deborah com a voz embargada, na vã tentativa de conter as lágrimas.

Os economistas dizem que a Grande Recessão se estendeu de 2007 a 2009. Em 2004, a mediana do patrimônio líquido das famílias brancas era de US$ 134.280, comparativamente aos US$ 13.450 das famílias negras, segundo análise dos dados do Federal Reserve (o BC dos Estados Unidos) levantados pelo Instituto de Política Econômica americano. Em 2009 a mediana do patrimônio líquido das famílias brancas tinha caído 24%, para US$ 97.860; a mediana do patrimônio líquido dos grupos familiares negros tinha recuado 83%, para US$ 2.170, segundo o instituto.

Algernon Austin, diretor do Programa para a Raça, Etnia e Economia do instituto, descreve a atual discrepância de patrimônio da seguinte maneira: ‘Em 2009, para cada dólar de patrimônio que a média das famílias brancas detinha, as famílias negras tinham apenas dois centavos’.

Desde o fim da recessão, a taxa total de desemprego caiu de 9,4% para 9,1%, enquanto a taxa de desemprego dos negros aumentou de 14,7% para 16,2%, segundo o Departamento do Trabalho dos Estados Unidos.

‘Eu diria que a recessão não acabou para os negros’, afirma Austin. Ele acredita que um contingente de negros maior do que nunca poderá ser alijado da classe média, porque a taxa de desemprego dos negros com ensino superior alcançou recentemente seu pico, e o número de negros é desproporcionalmente mais elevado nos empregos dos governos estaduais e municipais que estão sendo eliminados devido aos maciços rombos orçamentários.

Maya Wiley, diretora do Centro de Inclusão Social dos EUA, diz que a legislação antidiscriminação aprovada na década de 1960 levou decênios para se traduzir em aumento da segurança econômica da comunidade negra – mas isso foi antes da recessão.

‘A história vai dizer que a classe média negra foi dizimada’ nos últimos anos, diz Wiley. ‘Mas ainda não acabamos de escrever a história.’

Em abril passado, o desemprego entre os negros do sexo masculino alcançou o maior índice desde o início da série histórica apurada pelo governo, em 1972. Apenas 56,9% dos homens negros com mais de 20 anos estavam trabalhando, comparativamente a 68,1% dos homens brancos.

O jornalista Chris Wilder, da Filadélfia, perdeu o emprego em 2008, quando o setor de mídia sofreu enormes prejuízos. O seguro-desemprego correspondeu a cerca de um terço de seu salário. Desde que ele deixou de recebê-lo, sua renda passou a ser quase zero, a não ser por trabalhos esporádicos como freelancer.

Ele ficou com depressão e ansiedade. Foi de um salário de seis dígitos para a situação de ter de verificar o saldo antes de usar o cartão do banco. ‘Tenho saudade de poder entrar numa loja e fazer a festa’, diz ele. ‘Agora, quando vou à loja comprar alguma coisa, tenho de me aferrar exatamente ao que vim comprar. Nunca tenho dinheiro para comprar nada mais do que isso.’

Os negros com ensino superior se saíram pior que seus colegas brancos na recessão. Em 2007, o desemprego dos brancos com ensino superior era de 1,8%; o dos negros com ensino superior, de 2,7%. Atualmente a taxa de desemprego do pessoal com ensino superior é de 3,9% para os brancos e de 7% para os negros.

Alguns economistas dizem que o verdadeiro índice de desemprego entre os negros não é inferior a 25 ou 30%, porque os dados do governo não contam os trabalhadores ‘desmotivados’ que deixaram de procurar emprego e saíram do mercado de trabalho.

Alguns veem uma acerba ironia na escalada do desemprego entre os negros e na queda da classe média negra, sob as vistas do primeiro presidente negro. Mas muitos negros desempregados não responsabilizam o presidente pelos seus apuros. ‘Não tenho problema com Obama quando penso nas alternativas’, afirmou Wilder.

Deborah Goldring também acha que Obama não está fazendo um mau trabalho. ‘A situação de desemprego não é a melhor do mundo, mas acho que ela não tem muito a ver com ele’, diz ela. ‘Corrigir essa economia leva tempo.’

Wiley, a diretora do Centro de Inclusão Social, diz que Obama deveria ser aplaudido por várias iniciativas que ajudaram a classe média negra, como programas destinados a modificar determinados contratos de crédito imobiliário e a impedir o arresto da moradia por falta de pagamento em casos de perda do emprego.

A propriedade de residências por parte dos negros alcançou a maior alta de todos os tempos em 2004, com 50% dos afro-americanos sendo os donos das casas em que moravam, segundo dados do censo.

Atualmente a taxa de propriedade de residências é de 45%, comparativamente a 74% para o caso dos brancos. Quase 8% dos afro-americanos que compraram casas de 2005 a 2008 perderam-nas através de arresto por falta de pagamento, contra 4,5% dos brancos nessa situação, segundo estimativa do Centro pelo Empréstimo Responsável.

Fonte: Valor Econômico

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