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Memória Sindical

JOSÉ IBRAHIN sindicalista, político, coerente e revolucionário como poucos

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Memória Sindical

JOSÉ IBRAHIN sindicalista, político, coerente e revolucionário como poucos

 

José Ibrahin viveu ativamente uma época de muita efervescência política. Ele começou a trabalhar na Cobrasma (Companhia Brasileira de Materiais Ferroviários), em Osasco, em 1961, com 14 anos, que era a idade que se podia trabalhar.

Sua sólida formação política baseou-se na influência de professores “de esquerda” de um bom curso colegial, no Ginásio Estadual de Presidente Altino (GEPA), e na proximidade com dirigentes do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco, que frequentavam o “boteco” de seu pai, em 1963.

Ibrahin circulava entre os grupos políticos de esquerda de Osasco, como o Partido Comunista, o antigo PTB e correntes da Igreja Católica Progressista. Quando ocorreu o golpe militar, em 1964, ele já era sócio do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco. O Sindicato, que surgira como uma instituição com forte perfil político e combativo, fora uma das primeiras instituições a sofrer intervenção e prisão das lideranças.

Foi aí que Ibrahin percebeu que precisava, com o seu pessoal, o chamado “Grupo de Esquerda de Osasco”, reagir. E, com o Sindicato “vigiado”, a reação teria de partir do interior das fábricas. Em 1967 diversas comissões de fábrica já estavam organizadas e atuantes em Osasco. A da Cobrasma, da qual Ibrahin era o presidente, era a maior delas. Mas havia também comissões fortes nas fábricas Braseixos e Lonaflex.

Depois, ele e seu grupo conquistaram a direção do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco, então dirigido por Henos Amorina, um sindicalista conservador e submisso às leis dos militares. Ibrahin sempre manteve respeito por Amorina, especialmente quando seu adversário retirou sua candidatura para a Presidência do Sindicato, no segundo escrutínio das eleições de 1967. A chapa verde, encabeçada por Ibrahin, composta pelo pessoal da Frente Nacional do Trabalho, venceu no primeiro turno, porém não alcançou o quórum por uma diferença de 60 votos. Para evitar um segundo escrutínio custoso e desgastante para todos, Amorina retirou sua chapa, elegendo Ibrahin para a Presidência do Sindicato.

No ano em que seu grupo retomara a direção do Sindicato, organizações contra a ditadura começavam a despontar no cenário nacional, e isso viabilizou a criação do Movimento Intersindical Anti-Arrocho (MIA), movimento que reuniu os maiores sindicatos a fim de realizar ações de protesto.

Com isto, os olhos da ditadura se voltaram contra Ibrahin. E ele, que àquela altura já havia percebido que seria cassado de qualquer jeito, insistiu para que sua diretoria e sua base transformassem em realidade uma ideia que ele cultivara desde a época em que presidia a comissão de fábrica da Cobrasma: fazer a greve.

Era a época do arrocho salarial, do desemprego e das perseguições políticas. O confronto seria mesmo inevitável. A paralisação foi deflagrada em 16 de junho, em Osasco. O governo contatou os sindicalistas e a negociação parecia fluir. Mas, quando anoiteceu a polícia cercou o Sindicato e invadiu a empresa. Houve  confronto, gente ferida dos dois lados.

Cassado e perseguido, Ibrahin passara para a clandestinidade e instalou-se num aparelho montado por companheiros da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária). Mesmo na clandestinidade, ele voltou diversas vezes ao Sindicato de Osasco para garantir que a luta continuasse. Até ser preso pelo DOI-CODI (Destacamento de
Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna), em 1969.

Preso em São Paulo, ele e mais 14 presos políticos foram para o exílio em troca da libertação do embaixador americano Charles Elbrick, seqüestrado por membros da Dissidência Comunista da Guanabara. Retornou ao Brasil em 1979, por causa da Anistia daquele ano. O dirigente metalúrgico participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, em 1980, e da Central Única dos Trabalhadores, em 1983.

Em 1991, Ibrahin foi um dos principais articuladores da criação da Força Sindical, Central que ele já vislumbrava como uma instituição que viria para renovar o sindicalismo brasileiro. Ele foi o primeiro secretário de Relações Internacionais
da Central. Nos últimos anos trabalhou na União Geral dos Trabalhadores (UGT). Ele faleceu na madrugada do dia 1º para o dia 2 de maio de 2013, aos 66 anos. Sindicalista, político, coerente e revolucionário como poucos.

Deixará saudades!

*Carolina Maria Ruy é jornalista, coordenadora de projetos do Centro de Cultura e Memória Sindical

Fonte: Carolina Maria Ruy

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