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Um mundo de apreensão com o Brasil

terça-feira, 21 de junho de 2016

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Um mundo de apreensão com o Brasil

Por: Sérgio Luiz Leite, Serginho

Acabo de chegar da 105ª Assembleia Anual da OIT, em Genebra, na qual me dirigi ao plenário internacional de 1,5 mil integrantes, em nome dos trabalhadores brasileiros, por decisão das delegações das centrais sindicais nacionais. O mais importante desta jornada esteve no que vi, ouvi e depreendi. Minha mensagem, como sempre é a dos que integram as forças produtivas do Brasil, foi de paz, crença em nossa capacidade de superação da atual crise econômica e plena confiança no futuro. Manifestei que nossa sociedade é moderna, democrática e se desenvolve no respeito à diversidade, com leis e instituições sólidas. Nossos problemas, registrei, estão se resolvendo não mais à base dos jeitinhos e arreglos, mas sob os trâmites rigorosos, às vistas da opinião pública.

É claro, porém, que não bastaria o discurso de um representante, como eu, de trabalhadores, para dissipar as muitas apreensões do mundo do trabalho, aglutinado em torno do organismo da ONU, sobre o Brasil e nossa economia.

Minha bagagem, verdade é essa, voltou bem mais pesada pela carga de dúvidas e receios depositadas por delegados à OIT, do mundo inteiro, sobre o que vai ser da nossa economia. É incompreensível para quase todos que lá debateram como, num pequeno ciclo de dois anos, conseguimos declinar de um regime de pleno emprego para as profundezas de uma recessão com 11,4 milhões de desempregados. Onde o Brasil vai parar?, todos querem saber.

O medo desse mundo que cria e produz os bens e as riquezas que fazem a economia real dos países – uma classe de cidadãos sem paralelo, por exemplo, com os bilionários e banqueiros que todos os anos sobem a montanha de Davos para, no Fórum Econômico Mundial, desfiar lições de como se ganhar mais com juros e derivativos em detrimento do emprego e da produção — é grande em relação ao Brasil.

O temor é de que, como já se vê noutra economia gigante do nosso continente, a do México, nosso país sucumba entre maneirismos históricos da elite política, se deixe aprisionar por um Congresso não representativo e perca, como infelizmente já ocorreu, nos anos 1980, mais uma década de oportunidades.

Em razão da já longa e atribulada crise política brasileira, a real preocupação global com a nossa economia tem de ser enfrentada, aqui, em sua real dimensão. O primeiro passo é entender que não estamos imunes a ir pelo mesmo caminho do México, onde muitos salários já estão abaixo dos pisos da China, ou patinar como a Argentina, na qual a recomposição da atividade econômica mostra todas as dificuldades reais de uma tarefa desse porte.

Cabe a objetividade: a crise política pode matar a nossa economia. Os dados dramáticos da desindustrialização, o mergulho na atividade comercial, a falta de confiança dos consumidores, a paralisia do setor imobiliário, os juros que não se consegue baixar, enfim, são indicadores mais do que suficientes para entendermos que o Brasil está em xeque.

Nesse quadro, as centrais sindicais brasileiras já vão consolidando o entendimento, com diferentes nuances de ritmo, de que não se pode ficar de braços cruzados à espera da definição de poder entre Dilma Rousseff, do PT, e Michel Temer, do PMDB. É preciso, enquanto alguns nós são desatados e, novos, amarrados, seguir com a luta nas fábricas e empresas pela manutenção da produção e do emprego, pressionar pela defesa dos direitos trabalhistas que garantem a estabilidade social e negociar, em todos os fóruns que se abram, o relance. Agir, formular, propor, esse é mantra a ser repetido. Negociar para avançar. Rechaçar discursos políticos de quanto pior melhor e concentrar todos os esforços na busca de soluções que passam, especialmente neste momento de transição, por diálogos em profundidade com os empresários e os poderes instituídos.

Não podemos nos dar ao luxo de estar ausentes do debate do futuro da Previdência Social. Temos de lançar à mesa, como tem feito os metalúrgicos, a importância de um plano de renovação de frota automotiva. Precisamos, como fazemos nós, no nosso setor químico e farmacêutico, em iniciativas positivas adotadas pelo governo de São Paulo a partir de sugestões da nossa categoria, trocar impostos por garantia de emprego, promover o incentivo da produção combinado com apelos de consumo. É preciso, enfim, por mais que novos e humilhantes lances da crise nos surpreendam, todos os dias trabalhar. Reclamar à beira do caminho nos deixará exatamente assim mesmo: reclamando à beira do caminho.
 
Sergio Luiz Leite, Serginho é presidente da Federação dos Trabalhadores Químicos e Farmacêuticos do Estado de São Paulo e 1º secretário da Força Sindical
 

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