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Memória Sindical

Greve dos 300 mil

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Memória Sindical

Greve dos 300 mil

A Greve dos 300 mil não apenas alcançou seu objetivo financeiro, que era o reajuste salarial de 32%, como também criou condições para o surgimento de entidades intersindicais, formou lideranças operárias e pressionou o presidente Getúlio Vargas a nomear um ministro do trabalho comprometido com a melhoria das condições de vida dos trabalhadores: João Goulart.

Rede Brasil Atual

Em março de 1953 a maior parte dos trabalhadores paulistas realizou uma greve geral contra a carestia, que ficou conhecida como Greve dos 300 mil.

O estopim da greve foi o alto custo de vida, que, conforme dados da Fundação
Getúlio Vargas, subiu cerca de 100% entre os anos de 1943 e 1951, em São Paulo, enquanto o salário mínimo subiu apenas 14%.

Entretanto, seus desdobramentos foram mais políticos do que financeiros, e a
greve resultou em uma profunda transformação no sindicalismo brasileiro.

Desde o início, o movimento demonstrou-se preocupado não apenas com o
poder aquisitivo do trabalhador, mas principalmente com a política que regia as relações de trabalho e com a confiabilidade dos órgãos que calculavam os salários e o custo de vida. Vale registrar que a preocupação com estes cálculos já estava colocada desde a greve dos bancários, em 1951.

Comandada pelo Partido Comunista Brasileiro, contando também com filiados do PSB, PTB, PSP e PSD, a Greve dos 300 mil se iniciou com a assembleia geral dos tecelões, em 10 de março de 1953, e teve a gradativa adesão de outras categorias, como metalúrgicos de São Paulo, madeireiros, gráficos e vidreiros.
No dia 18 de março daquele ano, uma passeata chamada de “Panela Vazia” reuniu 60 mil pessoas, que caminharam da Praça da Sé até o Palácio Campos Elísios, então sede do governo do Estado, exigindo o reajuste salarial. Uma semana depois cerca de 300 mil pessoas paralisaram suas atividades laborais.

Como naquela época os Sindicatos estavam atrelados à estrutura corporativista
do Estado, os trabalhadores, na realização da Greve dos 300 mil, se organizaram partir de comitês de empresa nos locais de trabalho.

A partir desses comitês foi formado, no vigésimo dia de paralisação, o Comitê Intersindical de Greve, reunindo as categorias e estabelecendo um acordo pelo qual a greve só terminaria quando houvesse condições gerais que atingissem a todos, evitando possíveis divisionismos forjados pela Justiça do Trabalho do Estado.

Apesar de cerca de 400 grevistas terem perdido seus empregos ao voltarem aos
seus trabalhos (a presença de grevistas nas fábricas não era aceita pelos patrões), a greve foi vitoriosa em vários níveis:

Em primeiro lugar – o aumento salarial de 32% foi alcançado.

Em segundo lugar – deste processo surgiu um senso de unidade intersindical
criando condições para o surgimento do Pacto de Unidade Intersindical (PUI), que foi a primeira de uma série de entidades intersindicais, como Pacto de Unidade e Ação (PUA), o Fórum Sindical de Debates, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), fundado em 1955 atendendo à demanda de um órgão de cálculos confiável, colocado na greve dos bancários em 1951 e, mais tarde, o CGT (Comando Geral dos Trabalhadores).

Em terceiro lugar – a greve formou lideranças sindicais, como os metalúrgicos
Remo Forli, Conrado Del Papa, Henos Amorina e Eugenio Chemp, os tecelões
Nelson Rusticci, Antonio Chamorro e Luís Firmino de Lima, os gráficos José
Greco e Dante Pellacani, o vidraceiro José Chedink e o marceneiro Salvador Rodrigues, entre outros.

E, em quarto lugar – a pressão dos grevistas levou o presidente da República,
Getúlio Vargas, a nomear como novo ministro do Trabalho o então deputado federal pelo PTB gaúcho João Goulart. Em janeiro de 1954, o novo ministro começou a estudar um aumento no salário mínimo, enfrentando de um lado a mobilização dos trabalhadores nas grandes cidades por um reajuste de 100% e, por outro, a rejeição dos empresários, que propunham um aumento de 42%.

Jango concedeu o aumento de 100%, como exigia a classe trabalhadora, e devido à forte reação por parte dos empresários e da imprensa foi forçado a renunciar ao cargo em 23 de fevereiro de 1954. Mas o reajuste já estava feito e o decreto do novo salário mínimo foi assinado por Getúlio Vargas no dia 1º de maio de 1954, o Dia do Trabalhador.

*Carolina Maria Ruy é jornalista, coordenadora de projetos do Centro de Cultura e Memória Sindical

Fonte: Carolina Maria Ruy*

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